A avaliação tem que ser avaliada…

10 04 2010

Já reparou como existem algumas frases que são ditas com tanta freqüência que a gente sempre tem aquela sensação de déjavu? São os famosos chavões ou frases feitas: afirmações sobre a realidade que não passaram pelo exame da reflexão. Fazemos como sempre foi feito, não examinamos as consequências. Mas essa falta de reflexão, de problematização e de avaliação tem seu preço.

Façamos o levantamento de algumas frases ouvidas com frequência da boca de trabalhadores da educação e também de gente leiga no assunto:

1)“ – Ah, agora que tem essa lei que proíbe a reprovação, ninguém vai mais estudar”.
2)“ – Antigamente era melhor, pois os alunos estudavam muito para passar de ano”.
3)“ – Tendo que aprovar os alunos de qualquer jeito, o professor perdeu a autoridade”.
4)“ – Os alunos não estudam Artes, Filosofia e outras disciplinas porque não reprovam”.
5)“ – Eu ensinei, os alunos não aprenderam porque não quiseram”.
6)“ – Tem que dar 30 pontos pela avaliação (prova), 10 pontos pela participação, 10 pontos pela assiduidade, 10 pelo caderno, 20 pelo seminário e mais 20 se o aluno escovar os dentes direitinho”.

Já está mais do que na hora de examinarmos criticamente essas frases que ouvimos há mais de dez anos dentro e fora da escola. Isso significa explicitar seus pressupostos, quer dizer, expor as ideias em que essas frases se baseiam.

Quem diz as frases 1, 2 e 4 não acredita que os conhecimentos escolares tenham valor real. Só se estuda “para passar”. Vale decorar tudo sem entender, pois o mais importante é a nota. Então, para que repensar as velhas listas de conteúdos? E não vale dizer que “a lei manda eu seguir essa lista de conteúdos”, pois não existe tal lei. O que na verdade dizem toda a legislação educacional, os parâmetros curriculares, a literatura especializada e mesmo o simples bom senso é que os professores precisam assumir a autonomia que lhes é conferida por sua formação para, coletivamente, definirem a proposta pedagógica da escola e fazer o recorte mais adequado dos conteúdos de suas áreas. Ninguém consegue ensinar tudo. Então, os conteúdos devem ser redefinidos em função das discussões da proposta pedagógica (PPP).

Quem diz as frases 2 e 3 acredita em duas coisas sem fundamento na vida real: primeiro, que a escola “de antigamente” era ótima (o que é falso, pois era altamente excludente; o Brasil foi um dos últimos países industrializados a universalizar o acesso ao ensino fundamental, e os leitores mais velhos se lembram de que antigamente para entrar na quinta série era preciso fazer um mini-vestibular, pois não havia vagas nem para a metade das crianças); segundo, que a avaliação (confundida com simples nota) é arma de intimidação do professor contra os alunos. Dessa forma se compreende como é possível alguém validar a frase 5, pois somente quem é incapaz de avaliar criticamente seu próprio trabalho pode crer que a avaliação se resume às provas e que a função da prova é simplesmente premiar os “bons” e punir os “maus”.

A frase 6 (embora em tom de brincadeira) reflete as imposições descabidas (e cada vez mais frequentes) de algumas autoridades educacionais, à revelia de qualquer consulta aos profissionais da educação e mesmo ao arrepio de tudo quanto se pesquisa e se sabe sobre educação e avaliação hoje em dia. Esse engessamento, essas cangas que se colocam cada vez mais sobre o professor retiram-lhe totalmente a autonomia para planejar o ensino. São imposições que violam frontalmente a LDBEN, como é evidente. Assim mesmo, a frase escancara a distorção: a avaliação se esvazia em um ritual burocrático de “dar nota”. Constata-se o total abandono da função primordial da avaliação, isto é, apurar em que medida os OBJETIVOS delineados no plano de aula pelo professor estão sendo alcançados, de modo a reorientar o planejamento. Sem reflexão, não há objetivos, não se olha para as necessidades dos alunos concretos, não se examina a realidade social que vivemos, não é necessário planejar uma metodologia, não há propriamente avaliação. Há apenas notas e conteúdos.

Nós mesmos estamos ensinando aos alunos que cada atividade escolar tem seu “preço”, como em uma espécie de pagamento em prestações para “passar de ano”. Aí, torna-se irrelevante saber se os alunos estão aprendendo ou não algo válido para sua formação como pessoas, como cidadãos. E eles, os alunos, aprendem isso rapidinho e passam a fazer somente o que “vale nota”.

Vamos encarar os fatos: o Brasil sempre teve taxas de reprovação muito mais elevadas que a média mundial. Em 26/04/2006, o jornal Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u18571.shtml) informava que nós ainda reprovamos mais os alunos do que o Camboja, o Haiti ou Uganda. Entre 177 países, só 45 tem taxas de reprovação superiores a 10 %. O Brasil emplacou 21% de crianças reprovadas. Onde está a tal “lei que proíbe a reprovação”? O Chile reprova 2 % e a Argentina 6 %, ainda de acordo com aquela reportagem. Ou a nossa forma de trabalhar e as nossas condições de trabalho na escola estão erradas ou o nosso povo é mais burro que os outros. Qual a explicação mais provável?

Evidentemente, a cultura da reprovação é que está equivocada. Muita gente acha que professor bom é o que reprova bastante. É como dizer que o melhor médico é o que mata o maior número de pacientes. Mas, pelo contrário, professor é para ensinar, e médico é para curar.

Reprovar demais representa um custo irracional na vida de cada aluno e também para o país. Mas, ao invés de melhorar a formação inicial, os salários e as condições de trabalho dos professores, os governos de todos os níveis (com raras exceções) empenharam-se em piorar essas condições objetivas, durante muitos anos. Criaram as famosas licenciaturas curtas, permitiram a abertura de péssimas faculdades e mantiveram salários defasados, fazendo com que a profissão deixasse de ser atraente para os jovens, construíram escolas ruins e nunca se preocuparam efetivamente em dotá-las de bibliotecas e outros recursos indispensáveis.

Agora, muitas autoridades pelo país afora declararam aberta a temporada de caça ao professor. A culpa pelo péssimo estado da educação é atribuída aos professores, individualmente. E em lugar de verdadeiras políticas públicas, criam-se prêmios daquilo, prêmios disso. Instala-se diante das câmeras de TV um equipamentozinho barato aqui, outro ali. Apenas ilusões. E, sem compreender minimamente o fenômeno da educação, multiplicam exigências burocráticas sobre os professores. Mas descumprem as mais elementares normas dos planos de carreira – deixando de avaliar sistematicamente os profissionais, por exemplo. Se há maus professores, como passaram no estágio probatório de três anos?

Só há uma forma de escaparmos dessa armadilha: fazer valer nossa dignidade profissional. Unirmo-nos com todos os companheiros e companheiras que possuam compromisso com a transformação dessa realidade injusta em que vivemos, criar propostas de formação continuada e reavaliar corajosamente as nossas concepções e práticas de avaliação. Os sindicatos que representam os professores precisam ser fortemente pressionados pelas bases para defender essas propostas, caso contrário não sairão do lugar.

André Augusto da Fonseca.

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