Os manuscritos de Sinop

turcos 1 Um amigo, que pede a gentileza de não ter seu nome revelado, encontrou em um sebo de Belém uma caixa contendo alguns maços de papel amarelecido. Em letra bem cuidada, de caligrafia antiga, pôde perceber que se tratava de anotações de viagem de algum português setecentista, em andanças por algum país do oriente. Curioso, meu amigo resolveu examiná-las mais detidamente. Comprou o material do livreiro, sem regatear preço.

Em casa, sua felicidade e seu espanto foram ainda maiores: tratava-se dos diários de João Alves da Nova, diplomata português enviado para o Império Otomano no ano de 1764, com a finalidade de estabelecer uma base comercial no Levante. O empreendimento, porém, nunca foi adiante, e João da Nova se viu praticamente sem função alguma na distante cidade turca de Sinop, no norte da Anatólia. Aproveitou o farto tempo livre para conhecer melhor a região, acumulando em seu diário uma grande e rica quantidade de observações dos costumes locais.

Os diários são importantes registros da mentalidade ilustrada de um determinado grupo de portugueses no século XVIII, preocupados com o atraso de seu país, com o obscurantismo religioso que dominava Portugal, com a vil dependência econômica em relação à Inglaterra. Esse grupo, do qual Pombal fazia parte, tentava fazer Portugal recuperar parte do tempo perdido, buscando novas fontes de riqueza no grande império colonial. A cartada de Pombal na Turquia, tendo fracassado completamente, é virtualmente desconhecida dos historiadores. Com a autorização da Divina Porta (o Sultão de Constantinopla), João Alves era o enviado especial de Lisboa para estabelecer contatos com os comerciantes e artesãos locais, de modo a abrir caminho para uma futura rota comercial com o Mar Negro e o centro da Ásia.

No entanto, com a queda de seu protetor, o Marquês de Pombal, e com o conseqüente revanchismo dos inimigos da política do despotismo esclarecido, começou a Viradeira em Portugal: os elementos mais reacionários chegaram ao poder com Maria I, e imediatamente João Alves foi chamado de volta a Lisboa. Ao chegar, foi preso e submetido a um terrível inquérito. Nada encontrando contra ele, a Coroa enviou o pobre João para os confins da Amazônia, no Alto Rio Branco, onde terminou seus dias em uma pequena e esquecida fortaleza.

Depois de ler “por alto” o material, esse meu amigo pediu-me o favor de transcrevê-lo para uma eventual publicação. À medida em que eu for fazendo essa transcrição, com a autorização do proprietário do material, pretendo publicar neste blog, em primeira mão, alguns trechos dos diários de João Alves da Nova. Posso garantir que a fonte é tão autêntica quanto aquelas utilizadas por Borges em livros como O Informe de Brodie. Divirtam-se!

One response

14 02 2009
daniel

É sempre bom ler a cerca de coisas pretéritas que, felizmente, não mais acontecem em dias presentes. E, certamente, não serão conjugadas em tempos futuros. Se me fugirem coisas a fazer, terei o prazer de ler o passado já que o presente é de leitura sempre angustiante.

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