A insustentável leveza do desenvolvimento

30 01 2009

Estou em frente a mais uma enorme concessionária de veículos de nossa bela capital. Um caixotão de alvenaria, aço e vidro, calçadas rebaixadas para permitir a privatização do passeio público, transformado em pátio de exposição dos carros à venda. Nenhuma sombra de árvore, nenhum espaço para os pedestres. Até aí, nenhuma novidade. O que me surpreendeu foi a vistosa placa do BASA pregada no prédio, a anunciar orgulhosamente: “PROMOVENDO O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: o Banco da Amazônia financia este empreendimento”. Engraçado: financiar a revenda de automóveis é desenvolvimento sustentável? Mais e mais carros particulares, mais congestionamentos, acidentes e, sobretudo, mais poluição, em detrimento do transporte coletivo, mais consumo de combustíveis fósseis… Não sabia que isso era sustentabilidade. Essa expressão, repetida ad nauseam por tudo quanto é marqueteiro, oligarca, jornalista ignorante e outras modalidades de charlatanismo, é aplicada a tudo: tornou-se expressão de uso obrigatório na academia, na escola básica, nas palestras, nos congressos… Como se trata de uma noção vaga, apropriada por todo mundo mas nunca bem definida, acabamos por nos satisfazer com contornos imprecisos: o desenvolvimento sustentável implicaria algum tipo de mudança no comportamento dos consumidores – por exemplo, digamos, usar sacolas reaproveitáveis nas suas compras? – ou dos produtores – lançar um pouco menos de efluentes tóxicos em nossos rios? Corresponderia à adoção de um decálogo qualquer de condutas destinadas a reduzir um pouco o desperdício, a estúpida destruição do meio ambiente, o consumo excessivo, o desprezo pela coletividade? Nada disso!
O BASA acaba de esclarecer, da forma mais clara possível, o que é desenvolvimento sustentável: apenas um slogan, um rótulo que se cola em qualquer atividade econômica (e lucrativa), sem que se mude absolutamente nada. É uma palavra mágica, um tipo de abracadabra: pegue o automóvel, o maior poluidor do Brasil, e diga: “Desenvolvimento sustentável!” Voilá: o carro deixou de ser um poluidor. Agora ele promove a sustentabilidade.