Eleições em Roraima: nada de novo, ainda

15 09 2014

Precisamos investigar por que é tão difícil o avanço do debate político em Roraima. Apesar de termos tanta gente valorosa, inteligente e capaz, falta uma cultura de debate, de criticidade, de questionamento do senso comum. Acre, Amapá e Rondônia também foram territórios federais, mas já há vários anos tem uma sociedade civil mais organizada e movimentos sociais mais robustos, o que faz com que existam alternativas políticas um pouco mais à frente que nossa classe política jurássica. Em Roraima, a discussão política pouco avança e continua rasa como um pires com água que uma formiguinha atravessa com água pela canela, como diria Nelson Rodrigues:
1. Pela enésima vez, vemos em Roraima gente que critica o candidato X por incompetência, graves acusações de corrupção, grilagem de terras, endividamento do estado etc. Mas muitas dessas mesmas pessoas pensam que a única alternativa é o candidato Y, que já estrelou escândalos nacionais de corrupção (Gafanhotos etc.) e tem tantas encrencas com a lei quanto o candidato X. Outros ainda apoiam o vice de X, como se não tivesse nada a ver com tudo o que aconteceu no estado nos últimos anos. Ao serem lembrados do caso Gafanhotos, apoiadores do candidato Y tem a desfaçatez de justificá-lo, dizendo que é normal roubar dinheiro público. Terceiros candidatos, que existem, são ignorados.

2. Há décadas o movimento estudantil sofre com descontinuidade, oportunismo e individualismo; apesar de alguns poucos ativistas que compreendem criticamente o todo e fazem uma luta coerente, outros personagens despontam com cobranças justas (mas pontuais e inconsequentes) para em seguida aliar-se ao que há de pior na política do Estado. A nova versão desse trampolim foi o mimetismo desorientado das manifestações de junho de 2013, desencadeadas em outras capitais por lutas históricas de esquerda como a do MPL, mas que em Roraima agregaram muitas pessoas com ideias extremamente reacionárias sobre criminalização do aborto, criminalização da maconha, mídia, educação, direitos LGBT etc. Ou seja, na contramão de todo o movimento contestatório no mundo. Essas pessoas, que continuam a dizer “que nenhum partido presta”, procuraram vaga imediatamente em qualquer legenda de aluguel para se candidatar ao parlamento (que “não presta”), em 2014.

3. Ainda há enorme relutância em se aceitar princípios republicanos básicos, como o concurso público: a adoção atrasada do concurso público no início dos anos 2000 ainda é vista por muitos como a grande tragédia do estado, e periodicamente aparecem “heróis” propondo emendas constitucionais para trens da alegria que deem estabilidade a pessoas não concursadas.

4. A categoria docente é uma das maiores do estado e tem o maior sindicato de RR. Ainda assim, vários professores votam e militam a favor de candidatos que, ou já massacraram a categoria, ou não assumem absolutamente qualquer compromisso com gestão democrática e financiamento da educação. Temos denúncias gravíssimas de problemas com o próprio Instituto de Previdência dos servidores, mas mesmo assim há pouca cobrança e pouca mobilização (apenas alguns poucos e bravos lutadores de muitos anos, apanhando muita porrada). Resultado: não temos influência no Conselho de Educação nem temos eleições para diretores, um atraso de 30 anos.

5.A bancada de Roraima na Câmara Federal, lamentavelmente, votou majoritariamente contra a PEC do trabalho escravo. Mais um vexame nacional para Roraima. Mas, ao contrário da bobagem do Fiuk, sobre a qual houve milhares de manifestações de repúdio nas redes sociais, praticamente NINGUÉM se importou com o fato de que a maioria de nossa classe política milita CONTRA o combate ao trabalho escravo.

6. As questões da mineração, dos direitos indígenas, da ameaça de uma hidrelétrica no Bem-Querer, a apuração dos escândalos na Saúde, na Educação, no Iteraima, no IPER, dos repetidos escândalos da terceirização, que deveriam estar no centro das atenções, parecem simplesmente não existir. Na maioria das vezes, quem fala sobre estas eleições parece que vive em outro planeta. Apoia A ou B por ser seu amigo, mesmo que esteja em um partido extremamente corrupto. Assim como há dois anos o péssimo transporte público de Boa Vista não foi pauta da campanha municipal. Difícil explicar isso.
Neste ano eleitoral, vemos que a conversa sobre política em Roraima (com raras exceções) continua um diálogo de surdos, que não avançou nem um milímetro em relação à velha idolatria do coronel Ottomar. Mas nem tudo se resume a esse aspecto lamentável da realidade. Alguns grupos de estudantes e professores, de trabalhadores e indígenas, de ativistas LGBT, alguns sindicatos livres, aqui e ali, sustentam um debate que ganha qualidade. Essa luta, que mostra a importância da organização coletiva e a futilidade de tantas manifestações despolitizadas, individualistas e voluntaristas, não vai ter resultados hoje, nesta eleição. Como dizia o narrador de O Germinal, no anticlímax de uma derrota dos trabalhadores, mesmo quando tudo parecia perdido e parecia impossível mudar aquela ordem social:

“Agora, em pleno céu, o sol de abril brilhava em toda sua glória, aquecendo a terra que germinava. Do flanco nutriz brotava a vida, os rebentos desabrochavam em folhas verdes, os campos estremeciam com o brotar da relva. Por todos os lados as sementes cresciam, alongavam-se, furavam a planície, em seu caminho para o calor e a luz. Um transbordamento de seiva escorria sussurrante, o ruído dos germes expandia-se num grande beijo. E ainda, cada vez mais distintamente, como se estivessem mais próximos da superfície, os companheiros cavavam. Aos raios chamejantes do astro rei, naquela manhã de juventude, era daquele rumor que o campo estava cheio. Homens brotavam, um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos sulcos da terra, crescendo para as colheitas do século futuro, cuja germinação não tardaria em fazer rebentar a terra” (Emile Zola).

Há potencial, mas precisamos nos organizar e criar uma cultura de debate e formulação de propostas alternativas.

Há potencial, mas precisamos nos organizar e criar uma cultura de debate e formulação de propostas alternativas.

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As grandes reivindicações ausentes dos protestos (Por Cynara Menezes)

5 07 2013

(publicado em http://socialistamorena.cartacapital.com.br/as-grandes-reivindicacoes-ausentes-dos-protestos/)

Já critiquei aqui a falta de foco da grande maioria dos manifestantes que foram às ruas nas últimas semanas para protestar contra “tudo”. Desde então, apareceram algumas listas e pesquisas sobre o que querem os manifestantes. Encabeça o rol a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) número 37, que reduz o papel do Ministério Público nas investigações policiais, um projeto polêmico que não encontra consenso nem no meio jurídico –e sobre o qual muitos dos que bradam contra ela não sabem quase nada além de ouvir falar que é a “PEC da Impunidade”. Eu tenho dúvidas até se sabem o que significa a palavra “PEC”.
UPDATE: a PEC 37 foi arquivada pela Câmara na terça-feira à noite. Vitória dos manifestantes. Devo tirar o chapéu para eles, não importa que soubessem ou não profundamente do que se tratava. Derrubaram a PEC, uma PEC no mínimo polêmica. Parabéns.
Segundo pesquisa Ibope revelada domingo à noite no programa Fantástico, 24% dos que foram aos protestos disseram estar ali “contra a corrupção”, de forma genérica, e 6% contra a PEC37. 12% alegaram defender melhorias para a saúde e 5% estavam protestando contra os gastos da Copa do Mundo e em favor da educação. Vi gente pedindo à presidenta Dilma várias coisas que não são de sua alçada, como a destituição de Renan Calheiros da presidência do Senado, o que para mim é significativo da falta de consciência política e de informação da maior parte dos manifestantes.
Um problema, aliás, que atribuo ao PT: em dez anos de governo, o partido pouco ou nada investiu na formação política e na conscientização da juventude. Na Venezuela, mesmo os adversários reconhecem o papel que Hugo Chávez teve na formação de uma juventude consciente. Tanto é que, de esquerda ou de direita, os jovens venezuelanos conhecem seus direitos e a Constituição do país. No Brasil estamos a anos-luz disso.
Voltando às manifestações. Até agora várias pautas continuam de fora dos protestos, que, a meu ver, além de terem descambado para a violência por conta de uma minoria exaltada, continuam vazios de significado. Curiosamente, todas progressistas. Algumas delas:
– A FAVOR: PEC90, de autoria da deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), estabelece a mobilidade urbana e metropolitana como direito social nos termos do artigo sexto da Constituição, ao lado da saúde e da educação. Se aprovada, poderia trazer melhorias fundamentais ao transporte público, item primordial dos protestos. UPDATE: a PEC90 foi aprovada pela CCJ da Câmara. Outra vitória que também pode ser atribuída à pressão popular.
– CONTRA: Lei Geral das Religiões, prestes a ir ao plenário do Senado, prejudica religiões minoritárias como as de matriz africana (umbanda e candomblé), e torna o ensino religioso obrigatório.
– A FAVOR: Reforma Política. O financiamento público de campanha seria capaz de reduzir a corrupção em todas as esferas governamentais.
– CONTRA: PEC215, de autoria do deputado federal Almir Sá (PPB-RR), que retira do Executivo a palavra final sobre a demarcação de terras indígenas e a repassa ao Congresso. Esta PEC é a atual causa de revolta dos índios no País.
– A FAVOR: Imposto sobre as grandes fortunas, que incidiria sobrre contribuintes que têm patrimônio superior a 4 milhões de reais. Isso representaria uma arrecadação de 14 bilhões de reais que poderiam muito bem reforçar o orçamento da saúde, por exemplo.
– CONTRA: PEC33, aprovada pelo PT em conjunto com o PSDB na Comissão de Constituição e Justiça, torna possível ao Congresso questionar algumas decisões do Supremo. Imaginem o perigo.
– A FAVOR: desmilitarização da polícia.
– CONTRA: alianças do PT com o conservadorismo. Por que ninguém pede que Dilma rompa com os ruralistas e com a bancada evangélica?
Já mencionei os polêmicos projetos do Estatuto do Nascituro e da Cura Gay, que os fundamentalistas tentam empurrar goela abaixo da população esclarecida e que não vêm sendo suficientemente denunciados nas manifestações.
Eu pergunto: se você, cidadão consciente, ainda pretende ir às manifestações (pessoalmente, defendi que sou a favor de uma trégua), que tipo de bandeira pretende empunhar? Você saberia responder por que estas questões estão ausentes dos protestos? A quem interessa que não sejam lembradas?





Corrupção e Crime Hediondo: o que muda (por Belize Câmara)

5 07 2013

Publicado em http://www.virusplanetario.net/corrupcao-e-crime-hediondo-esclarecendo-sem-juridiques/

Do ponto de vista da linguagem vulgar, hediondo é algo repugnante, que dá nojo. No universo do Direito Penal e do Processo Penal, quais as consequências práticas de um crime hediondo? O assunto está tratado na Lei nº. 8.072/90. Em primeiro lugar, diferentemente do que muitos pensam, nos crimes hediondos é possível que o acusado responda ao processo em liberdade, desde que preencha certos requisitos. Isso é entendimento pacífico nos tribunais brasileiros e também no STF. As únicas diferenças realmente práticas são:

a) Progressão da pena mais rigorosa: No nosso sistema, o condenado deve progredir de regime (do fechado para o semi-aberto e do semi-aberto para o aberto), desde que preencha certos requisitos ligados ao comportamento dentro da prisão. Nos crimes “normais”, o indivíduo “pula” de um regime para o outro depois de cumprimento de 1/6 da pena. Nos crimes hediondos, é necessário o cumprimento de 2/5 da pena (se o réu é primário) e de 3/5 (se o réu é reincidente). Ex: Numa pena de 30 anos, se o crime for normal, depois de 5 anos o indivíduo sai do regime fechado e, se for hediondo, isso acontece depois de 12 anos (se o réu é primário) e 18 anos (se o réu é reincidente).

b) Vedação de anistia, graça ou indulto: A anistia é uma espécie de “esquecimento” do crime e geralmente se aplica a crimes políticos. A graça e o indulto são aplicados a crimes não políticos, depois da sentença e resultam na extinção da punibilidade (na prática, o condenado sai da prisão). A diferença é que a graça é individual e geralmente solicitada, enquanto o indulto é geral e espontâneo. Quem nunca ouviu falar dos “indultos de Natal”? Pois bem, os crimes hediondos não admitem nenhum desses benefícios.

Em Direito Penal, sabe-se que apenas aumentar a pena ou transformar um crime em hediondo não inibe a sua prática. Se assim fosse, o porte de arma, que era mera contravenção e que vem tendo a pena aumentada ano após ano, teria diminuído nas estatísticas. Ao contrário, só aumentou. O mesmo se diga em relação ao homicídio qualificado. Depois do caso da atriz Daniela Perez, passou a ser hediondo. Mas os homicídios no Brasil também só têm aumentado.

Assim, ser o crime hediondo ou ter uma pena alta são circunstâncias que, sozinhas, NÃO vão fazer com que sua prática diminua. O desestímulo ao crime (fazer com que ele não compense) se consegue, isto sim, com a certeza da punição. E tal só pode ser alcançado com a estruturação adequada do Estado para combatê-lo com eficiência.

Dito tudo isso, vamos para os fatos recentes. No dia de ontem (26/06/13), o Senado aprovou o Projeto de Lei nº. 204/2011, de autoria do Senador Pedro Taques (PDT/MT) transformando em hediondos os crimes de corrupção ativa e passiva, concussão e, através de emendas, os crimes de peculato, excesso de exação e, fugindo um pouco da pauta, o crime de homicídio simples.

A primeira observação que se faz é que “corrupção” é gênero, do qual são espécies inúmeros crimes. A palavra chave deve ser “dinheiro público” envolvido. Os crimes de corrupção ativa e passiva são crimes de corrupção, mas afora eles, existem muitos outros.

Pelo projeto aprovado no Senado, ficaram de fora do rol dos novos hediondos crimes muitíssimo mais graves e praticados por “peixes” realmente grandes, tais como lavagem de dinheiro, fraudes em licitação, evasão de divisas, alguns crimes contra a ordem financeira/tributária e outros contra a Previdência Social. Estes crimes que ficaram de fora geralmente pressupõem um verdadeiro esquema de organização criminosa e lesam, para não dizer matam, milhares de brasileiros ao mesmo tempo. Olha só, ficou de fora também o crime mãe, ou seja, a corrupção eleitoral, que alimenta todo o sistema. Caixa 2? Nem tocaram no assunto…

Por outro lado, “virou“ crime hediondo o chamado “excesso de exação” (em resumo, cobrança a maior ou indevida de tributos), o que nada tem a ver com a corrupção (a não ser que o agente estatal “cobrador” embolse a diferença indevida cobrada). Mais pareceu uma intimidação à ação dos auditores fiscais e um agrado aos grandes empresários.

O espírito das ruas parece demonstrar que o desejo do povo brasileiro vai muito além: a transformação em hediondos e a punição mais rígida de todos os delitos GRAVES que envolvem desvio de DINHEIRO PÚBLICO (e não somente destes recentemente aprovados pelo Senado).

Uma coisa, porém, parece indiscutível: os brasileiros não querem legislação decorativa ou meramente simbólica. Querem acima de tudo efetividade e certeza da punição dos corruptos e dos corruptores. E o alcance de tal objetivo só é possível por meio de medidas concretas destinadas à criação e aperfeiçoamento do sistema de repressão estatal, o que tem a ver com fiscalização, celeridade processual, juízos especializados no tema, racionalização do sistema recursal brasileiro e mudanças na execução penal. Infelizmente, até agora, não vimos tais pontos serem discutidos por nossos parlamentares.

O Projeto de Lei objeto desse pequeno texto foi apenas aprovado pelo Senado. Portanto, não virou lei. Ele ainda irá à Câmara dos Deputados e pode ser modificado. E não há momento mais oportuno para refletirmos sobre o verdadeiro tratamento que nós brasileiros queremos dar a esse mal endêmico chamado corrupção.





O mundo assombra-se com nossa ousadia!

11 02 2012

Modesta comparação entre as aulas magnas proferidas em diferentes instituições.





São João da Baliza: o que fazer com nossos municípios?

18 01 2012

Estou a ministrar uma disciplina de História no “campus” da UERR em São João da Baliza (RR). Até o momento o registro acadêmico não soube informar quantos alunos estão efetivamente matriculados na disciplina. De qualquer forma, só um aluno apareceu mesmo até hoje (terceiro dia da disciplina).

Como de praxe na maioria dos municípios do interior, a cidade não parece oferecer muitas perspectivas a seus habitantes. Ruas (muito) esburacadas, praças e obras governamentais abandonadas, grandes áreas desmatadas e depois deixadas ao domínio da capoeira e das ervas daninhas. O próprio site da prefeitura mostra como foto de divulgação da cidade uma rua em situação lastimável (http://www.pmsaojoaodabaliza.com.br/novo_site/popup.php?ID=9). O prédio da polícia militar está em péssimas condições. Nas escolas públicas, a mesma situação de muitas escolas da capital: paredes sujas, excrementos de pombo acumulados nos cantos. Falta energia elétrica com alguma frequência. A cidade é (des)servida pelos ônibus sucateados da Eucatur e por aquelas vans precárias e xexelentas. Já viajei em pé de São Luís a Boa Vista (mais de 8 horas de viagem), pois a Eucatur não vê nenhum problema em vender mais passagens que lugares. É impossível crer na existência de qualquer tipo de fiscalização dessa porca empresa de ônibus, que mostra total desprezo pelos passageiros. Fala-se em vastas áreas de lotes destinados ao assentamento comprados irregularmente por determinados deputados, que formaram dessa maneira grandes latifúndios.

Centro de São João da Baliza (RR)

O comércio da cidade parece ser bem movimentado e algumas casas estão bem cuidadas. O que mais chamou a atenção ao chegar na casa de apoio (alojamento dos professores) foi o gramado, a ausência de muros e uma bela samaúma no pátio. Infelizmente, um colega professor já me alertou que essa calma é enganadora, pois sua máquina de lavar já foi roubada de sua casa.

O prédio da UERR é vistoso, situado logo na entrada da cidade. Conta com umas dez salas de aula, espaço para biblioteca e para um auditório, bem como para umas 2 ou 3 salas administrativas. Tanto a área livre para uma possível expansão quanto o auditório foram subdimensionados, como de hábito. O prédio já foi planejado sem salas para os professores. Um loteamento está sendo aberto logo nos fundos do prédio e um estranho posto de gasolina quase fecha a frente do “campus”. As instalações são improvisadas. Ao que parece, um trator do loteamento vizinho destruiu o encanamento do prédio, deixando a universidade sem água. E ficou por isso mesmo. Os banheiros tem luzes de acendimento automático, acionadas por sensor de movimento – mas não há verba para papel-toalha. Cheguei em um domingo chuvoso, o que permitiu ver com meus próprios olhos como a tempestade entra livremente pela cobertura do prédio, formando uma cachoeira nas escadas e alagando parcialmente os corredores. A compra dos móveis está atrasada há mais de um ano, o que é alegado como justificativa para o fato deste prédio – e mais uns 4 ou 5 idênticos em outras cidades do interior – nunca terem sido inaugurados, apesar de estarem praticamente prontos.

Fui informado que os prédios dos campi de São João e Rorainópolis foram ocupados pelos alunos, cansados de ver o patrimônio público ser dilapidado pela ação do tempo, permanecendo em dependências improvisadas e dilapidadas de uma escola estadual. Com o fato consumado pelos alunos, organizados em um centro acadêmico, o diretor – homem honesto, competente e zeloso – tenta em vão sensibilizar as instâncias superiores a liberar recursos para reparos emergenciais. Ele e os funcionários esforçam-se ao máximo para garantir a limpeza e a organização do ambiente. Com todas as dificuldades, mostram empenho, lealdade e profissionalismo.

Com o mais recente concurso de professores da UERR, realizado em 2011, um grande número de mestres e doutores de São Paulo, Minas Gerais e outros estados vieram morar em Roraima. Vários fixaram residência no interior, cheios de energia, conhecimento e vontade de contribuir no desenvolvimento da universidade e do povo roraimense. Mas até que ponto uma universidade sozinha pode atuar como indutora de desenvolvimento? Como enfrentar o câncer da incompetência administrativa, da corrupção e do desperdício de dinheiro público que devasta Roraima? Até quando esses valorosos professores ficarão na UERR se não houver condições mínimas de trabalho?





“O mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, entre o fogo e o amor”

30 05 2011

A História sempre nos reserva surpresas. Em uma realidade cheia de contradições, o novo irrompe inesperadamente, abrindo possibilidades de se construir um mundo melhor ou de descambarmos para a barbárie.

Em janeiro, começou a grande insurreição árabe. Depois, as manifestações no Wisconsin, em reação ao imenso retrocesso nos direitos dos trabalhadores nos EUA. No Brasil, convivemos com as rebeliões de dezenas de milhares de trabalhadores nas grandes obras de infraestrutura e com o atraso dos ruralistas na destruição da legislação ambiental. O obscurantismo e a barbárie sob disfarce religioso, mas com a falta de criticidade e de uma mínima honestidade na análise dos fatos, aspectos que já tinham sido observados no segundo turno das eleições presidenciais do ano passado, voltaram a aparecer com força total no baixíssimo nível do desinformado debate sobre os materiais de combate à homofobia do MEC e do Ministério da Saúde.

Mas eis que, em maio, os levantes populares da Islândia, Grécia, Wisconsin, Egito, Tunísia, Iêmen, Líbia, Marrocos, Síria e Bahrein, ainda em chamas, continuam a ressoar… Agora na Porta do Sol em Madri – e em várias outras cidades espanholas!

Há coisas demais acontecendo.

Limitar-me-ei a indicar algumas análises muito ricas sobre os homens e as mulheres que se recusam a aceitar passivamente a opressão. “Os homens estão cá fora, estão na rua.”

As manifestações que denunciam a falsa democracia capitalista:
http://socialismo.org.br/portal/internacional/38-artigo/2058-maio-espanhol-as-portas-de-um-novo-tempo

Auditoria da dívida: temos que fazer no Brasil!
http://www.esquerda.net/artigo/equador-experi%C3%AAncia-da-auditoria-oficial-da-d%C3%ADvida-p%C3%BAblica

Análises do governo Dilma e seu conservadorismo:
http://socialismo.org.br/portal/ecologia/95-artigo/2055-codigo-florestal-base-do-governo-ou-governo-da-base

http://socialismo.org.br/portal/politica/47-artigo/2050-codigo-florestal-e-qkit-gayq-a-falencia-de-uma-governabilidade-conservadora

http://socialismo.org.br/portal/politica/47-artigo/2059-o-perfil-do-governo-dilma

http://socialismo.org.br/portal/questoes-de-genero/162-noticia/2056-dilma-e-a-homofobia





A sensacional liberdade de expressão no capitalismo

1 11 2010

Santiago, tu és um gênio, índio véio...

Pois é, agora que a sociedade civil em alguns estados tenta criar conselhos de comunicação para efetivar o que determina a constituição (no que diz respeito às concessões de rádio e TV, por exemplo, a constituição vem sendo reiteradamente violada desde o início), a grande mídia corporativa e oligopolizada brada que o Brasil caminha célere rumo a uma ditadura… E fazem encontros sobre a “liberdade de expressão” no Clube Militar, ao lado dos generais de pijama, saudosos da ditadura… Não é comovente?

Mas, examinemos um pouquinho o que esses caras entendem por “liberdade de expressão”:

1. Negam que tenha havido um “golpe” em Honduras; houve apenas a “destituição” de um presidente eleito. Ah, bom…

2. Passam a imagem de que o Irã (orçamento militar de 7 bilhões de dólares) é uma ameaça à paz mundial, enquanto os EUA (orçamento militar de 663 bilhões de dólares) são um exemplo de respeito aos direitos humanos e jamais fariam mal a uma mosca.

3. Chamam Chávez de ditador (a Venezuela não tem presos políticos) e elogiam a “modernidade” das “democracias” vigentes no México e na Colômbia, ignorando os sistemáticos abusos contra os direitos humanos, as fraudes eleitorais mexicanas, as valas comuns com milhares de pessoas assassinadas pelo exército colombiano e pelos paramilitares a soldo da direita colombiana etc… A senadora colombiana Piedad Córdoba, uma das únicas a ter coragem de interpelar o governo por tais abusos, acaba de ser cassada!

4. Abrem as páginas para ficha falsa do DOPS sobre a Dilma, integrante da resistência contra a ditadura, mas silenciam quanto à atuação de Aloysio Nunes Ferreira na guerrilha e nas apropriações de 1968. Por quê? Porque Aloysio era candidato (vencedor) ao senado pelo PSDB, oras!

5. Arrogam-se o monopólio da “opinião pública”, sempre a serviço de sua própria agenda: só mostram “especialistas” e analistas contrários à política externa independente; favoráveis à privatização; contrários às experiências democráticas na Bolívia e no Equador. Elogiaram até cansar o modelo falido da Argentina de Menem, e ficaram calados quando a casa caiu. Criticaram nossa política Sul-Sul e elogiaram a “lucidez” do México, com sua virtual anexação colonial aos EUA, mas se calaram quando o México se arrebentou na crise de 2008-2009, enquanto o Brasil saiu praticamente ileso; exigiram drásticos cortes do investimento público diante da crise mundial – o governo fez exatamente o contrário, felizmente.

6. Em 2010, quando um jornalista fazia uma pergunta incômoda a Serra, este esbravejava e, eventualmente, pedia a cabeça do repórter. Heródoto Barbeiro, tradicional apresentador do Roda Viva, foi demitido da TV Cultura nessas circunstâncias. Maria Rita Kehl foi demitida do jornal Estado de São Paulo por manifestar opinião diferente da linha editorial preconceituosa defendida por aquele periódico. Mais recentemente, um jornalista do Diário do Nordeste (CE) foi demitido por fazer uma matéria sobre o marxismo, vejam só! Os jornais ingleses de 150 anos atrás eram mais modernos… Clique aqui para ler… Detalhe: o jornalista não emitiu juízo de valor nem sua opinião pessoal. A matéria foi motivada pelo lançamento do livro Revoluções, do respeitado sociólogo Michael Lowy.

7. O já referido senador eleito Aloysio Nunes mostrou toda a sua cordialidade e respeito à mídia:
“O senador eleito por São Paulo, Aloysio Nunes (PSDB), perdeu a cabeça logo ao chegar aos estúdios da Record, para o debate entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). O tucano passou a xingar o repórter da Rede Brasil Atual e Revista do Brasil João Peres, após ser avisado por um assessor de quais publicações se tratavam.

“Não vou conversar com você, seu pelego filho da p… Esta revista é bancada pelo PT”, disse ao sair.” Veja a notícia aqui.

Ora, não vimos essa mesma indignação quando o Namaria News revelou os 250 milhões de reais que o governo paulista do PSDB deu à mídia amiga SEM LICITAÇÃO, na forma de compra de assinaturas para as escolas estaduais paulistas. VEJA e outras revistas da Abril, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo. Como sempre, primeiro compraram a mercadoria sem um projeto pedagógico, nada. A posteriori, houve alguns projetinhos pedagógicos. Mas ficou patente que a prioridade era dar dinheiro para esses órgãos, sem licitar. Por que a Carta Capital, a Caros Amigos, a Fórum ficaram de fora? Por que, meu Deus? Clique aqui para ler a entrevista genial da Namaria.

Pois é, meus queridos. Fiquemos alertas – como diz o hino do RS, mostremos valor, constância nesta ímpia e injusta guerra. A mídia corporativa, que aplaudiu de pé o golpe de 64, agora mantém a censura a qualquer voz dissonante. Ela é chegada a uma ditadura… Como já mostraram o Atílio Borón e tantos outros, o capitalismo é incompatível com a democracia. Abraços a todos e a todas.