Ainda sobre os padrinhos

27 02 2009

Há algum tempo atrás, famoso banqueiro pego com a boca na botija, bem conhecido na privataria nacional (operação que nos proporcionou os inesquecíveis telefonemas do Mendonça de Barros sobre a “forçada de barra” para os fundos de pensão entrarem com o capital para entregar a Telemar de mão beijada para o Daniel Dantas…), condenado sucessivamente nos tribunais dos EUA e do Reino Unido, foi preso na operação Satiagraha, mais ou menos ao mesmo tempo que o Pitta (outro famoso). Este último apareceu nos telejornais sendo preso de pijama pela PF. Ah, pra quê…

Imediatamente o grande Gilmar Mendes chamou toda a mídia nacional para um discurso emocionado em defesa dos pobres tubarões inocentes, tão malvadamente expostos pela polícia à sanha da condenação popular… E cuidou de dar não apenas um, mas dois habeas corpus – o segundo passando por cima, a jato, de todas as instâncias judiciais do país, o que segundo o juiz aposentado F. Maierovitch, deveria valer-lhe um impeachment. O momento que mais me emocionou foi quando Mendes disse que analisa habeas corpus de qualquer cidadão, até mesmo se for escrito em papel de pão [risos, muitos risos]. Ok, Mendes, se eu for preso vou tentar usar do mesmo direito de Daniel Dantas.

Saiu a súmula das algemas (a súmula “Daniel Dantas”). No país em que existe a famigerada “prisão especial” para a minúscula minoria que tem diploma de nível superior (tipo um título de nobreza), agora fica claro para qualquer bom entendedor: algema e exposição à execração pública anterior à condenação, só para pobre, ok?

Sim, todo mundo já sabia. Isso é meio feudal, mas é assim que deve ser, do ponto de vista da nossa elite neandertal. Os jornais todos os dias provam ter entendido muito bem a lição. Suspeito rico tem que aparecer na coluna social. Suspeito pobre vai na capa, bem exposto.

Quem mandou não ter facilidades e amigos no STF?

Anúncios




No Brasil como em Portugal: quem não tem padrinho, morre pagão!

27 02 2009

socieconhNada como viver em um país meritocrático, não é mesmo? Não existe mais nepotismo – nem direto nem cruzado, nem mesmo nos tribunais por aí afora! Embora a gente ainda se surpreenda com os sobrenomes de alguns secretários e outras otoridades pelo Brasil (Jucá? Pinto? Surita? Puxa, já ouvi esses sobrenomes em algum lugar!…), com certeza o único critério para a escolha foi o espírito público, a competência, o talento etc.

Antropólogos como Roberto Da Matta já produziram trabalhos interessantes sobre a cultura do “Você sabe com quem está falando?”, tão visceralmente diferente do igualitarismo democrático que está por trás, por exemplo, do “Who do you think you are?” de estadunidenses que não aceitam um carteiraço. Claro, nos EUA também existe “peixada”, carteiraço. Mas não parece ser um traço cultural tão fundamental com aqui. O “jeitinho”, a transgressão da norma impessoal, republicana, é muitas vezes a forma de sobreviver em um país com a marca de 400 anos de escravidão e 500 de latifúndio. Há leis que “não pegaram”, mesmo sendo reafirmadas de tempos em tempos. Um dos melhores comentários que vi sobre o uso do “jeitinho”, do recurso ao “conhecido” que trabalha no interior daquela agência (pública ou privada) da qual precisamos de algum serviço, é a tirinha portuguesa (ou banda desenhada, como chamam por lá) que reproduzi acima.





Enquete!!

12 02 2009




Chico Buarque ou a facilidade de ser profeta em um país onde as atrocidades se repetem

12 02 2009

Em 2007 a violência no sistema (?) prisional do estado tinha se banalizado a tal ponto que uma manchete como esta não chocava ninguém:
pic_0057
Idéias como reintegração do apenado à sociedade certamente nem passam pela cabeça de administradores assim. Nesse caso, se o sistema é um inferno incontrolável, por que não tirar algum proveito disso? Espero que o MP restabeleça algum grau de civilização nos presídios, onde tinha virado rotina aparecerem pessoas “suicidadas” como Herzog.

Diretor, policiais militares (inclusive um major, de novo) e civis, agentes carcerários e alguns dos presidiários que executavam o trabalho sujo (homicídios, extorsão, tráfico de drogas, tortura etc.) foram detidos pela polícia federal na operação Bastilha .

Você não acha que um comentário perfeito para essa notícia seria cantarolar uma certa música da Ópera do Malandro?…

Hino à repressão
(Chico Buarque)

Se atiras mendigos
No imundo xadrez
Com teus inimigos
E amigos talvez
A lei tem motivos
Pra te confinar
Nas grades do teu próprio lar

Se no teu distrito
Tem farta sessão
De afogamento, chicote
Garrote, punção
A lei tem caprichos
O que hoje é banal
Um dia vai dar no jornal

Se manchas as praças
Com teus esquadrões
Sangrando ativistas
Cambistas, turistas, peões
A lei abre os olhos
A lei tem pudor
E espeta o seu próprio inspetor

E se definitivamente
A sociedade só tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo
És um estorvo, és um tumor
Que Deus te proteja
És preso comum
Na cela faltava esse um.





A sutil arte da publicidade

5 02 2009

pic_00031 Sim, meus amigos. Estamos diante de um anúncio marcante pela sutileza e elegância, que oferece discretamente aos leitores do jornal um serviço tão necessário quanto desagradável. De uma maneira quase poética, o anunciante utiliza um termo conhecido para aludir (vejam bem: aludir) ao subproduto do serviço oferecido. Uma beleza, não? PS.: os personagens que aparecem no desenho são exatamente aquilo que você pensou.