Escala Voltaire de Sutileza

30 04 2010

Às vezes meus amigos me dizem que exagero nas ironias. Na verdade, às vezes uma ironia pode passar despercebida; em outros momentos, pode-se “forçar a mão” e transformar uma ironia em uma chacota nada sutil. Mas onde se situa a linha que separa a ironia do sarcasmo? Proponho aqui uma escala graduada de ironia, batizada de Escala Voltaire (este sim, um dos mestres da ironia). Aceito sugestões para aperfeiçoá-la.

A ideia é que o grau máximo de grosseria (9) equivale ao grau zero de sutileza, e vice-versa. Dessa forma, por exemplo, aquela propaganda da prefeitura afirmando que as obras de drenagem da cidade estão uma maravilha, eliminando os pontos de alagamento, configura um bom exemplo de SARCASMO (grau 5,5 de grosseria contra o cidadão que enfrenta alagamentos por toda parte). Já as propagandas surreais dos bancos, mostrando sempre clientes felizes e satisfeitos, agências sem filas, funcionários e gerentes solícitos (sem falar naquele comercial delirante da Caixa Econômica em que os funcionários realizam uma performance de dança digna da Broadway) constituem um exemplo de DEBOCHE (grau 7 de grosseria contra o cliente).

Por fim, a propaganda do governo estadual mostrando as maravilhas da educação pública roraimense, como se não faltasse papel, pincéis e os materiais mais elementares nas escolas estaduais com infiltrações, bibliotecas precárias ou inexistentes, evidencia-se como um caso de ESCÁRNIO (grau 9 de grosseria contra os alunos, pais e professores).





OS MANUSCRITOS DE SINOP: parte I

10 04 2010

Prezados leitores do blog:

Como anunciei anteriormente, estou tentando transcrever alguns velhos manuscritos, deixados por um oficial português setecentista e encontrados por acaso em um velho sebo. Completamente absorvido pelo trabalho na faculdade, ainda não tinha conseguido tempo para esse trabalho, que é muito mais penoso do que eu imaginava a princípio. Os papeis estão em mau estado e me fazem espirrar o tempo todo, e a escrita é bem diferente da nossa… Não havia ainda uma ortografia padronizada da língua portuguesa, talvez, no século XVIII. Sou um ignorante sobre esses assuntos, assim como não domino a arte da paleografia. Para culminar, os manuscritos, cujo conteúdo se assemelha a um diário, estão completamente fora de ordem cronológica. Acredito, entretanto, ter encontrado o primeiro registro desse material, que transcrevo a seguir:

Sinope, Império do Grão-Turco, sete de outubro de 1764.

Tendo chegado nesta cidade há onze dias, encontro-me bem instalado na casa de uns anciões que me acolheram muito bem, ainda mais depois de eu ter pago seis meses de aluguel adiantado.

A cidade de Sinope é muito antiga. Povoada há mais de dois mil anos pelos gregos, foi tomada pelos turcos em 1458. Hoje, é parte do extremo norte desse império dos infiéis, seguidores de Mafoma [grafia lusa antiga do nome de Mohamed, o profeta – NT], e os gregos, que são cristãos, ainda que hereges, são bastante maltratados pelos turcos. Eles, que eram donos de todas as terras por aqui, vivem em pequenas áreas que lhes foram destinadas pelos novos senhores.

A cidade de Sinop é bem fortificada, e um porto importante por onde passam os produtos de todo o norte do império turco para os países mais ao norte do Mar Negro. Há uns venezianos que tem seus negócios por aqui, e bem sei o quanto será difícil para os súditos del-Rey de Portugal se estabelecerem aqui. Mas venho conversando com as autoridades locais, inclusive com o paxá, que se mostrou muito interessado em romper o monopólio desses velhacos venezianos, embora não se mostre muito confiante na capacidade de nossos mercadores em substituí-los.
Os que mandam por aqui dividem-se em dois grupos. Um deles é liderado por algumas famílias que vieram da ilha de Creta, sendo conhecidos aqui como cretinos, enquanto o outro é formado por um clã que tem origem na Capadócia, mais a nordeste. Assim, nesta terra que se despovoou com a conquista, grande parte da população é de gente que se mudou há poucas gerações, e o paxá, seus assistentes e ministros são sempre ou cretinos ou capadócios.





A avaliação tem que ser avaliada…

10 04 2010

Já reparou como existem algumas frases que são ditas com tanta freqüência que a gente sempre tem aquela sensação de déjavu? São os famosos chavões ou frases feitas: afirmações sobre a realidade que não passaram pelo exame da reflexão. Fazemos como sempre foi feito, não examinamos as consequências. Mas essa falta de reflexão, de problematização e de avaliação tem seu preço.

Façamos o levantamento de algumas frases ouvidas com frequência da boca de trabalhadores da educação e também de gente leiga no assunto:

1)“ – Ah, agora que tem essa lei que proíbe a reprovação, ninguém vai mais estudar”.
2)“ – Antigamente era melhor, pois os alunos estudavam muito para passar de ano”.
3)“ – Tendo que aprovar os alunos de qualquer jeito, o professor perdeu a autoridade”.
4)“ – Os alunos não estudam Artes, Filosofia e outras disciplinas porque não reprovam”.
5)“ – Eu ensinei, os alunos não aprenderam porque não quiseram”.
6)“ – Tem que dar 30 pontos pela avaliação (prova), 10 pontos pela participação, 10 pontos pela assiduidade, 10 pelo caderno, 20 pelo seminário e mais 20 se o aluno escovar os dentes direitinho”.

Já está mais do que na hora de examinarmos criticamente essas frases que ouvimos há mais de dez anos dentro e fora da escola. Isso significa explicitar seus pressupostos, quer dizer, expor as ideias em que essas frases se baseiam.

Quem diz as frases 1, 2 e 4 não acredita que os conhecimentos escolares tenham valor real. Só se estuda “para passar”. Vale decorar tudo sem entender, pois o mais importante é a nota. Então, para que repensar as velhas listas de conteúdos? E não vale dizer que “a lei manda eu seguir essa lista de conteúdos”, pois não existe tal lei. O que na verdade dizem toda a legislação educacional, os parâmetros curriculares, a literatura especializada e mesmo o simples bom senso é que os professores precisam assumir a autonomia que lhes é conferida por sua formação para, coletivamente, definirem a proposta pedagógica da escola e fazer o recorte mais adequado dos conteúdos de suas áreas. Ninguém consegue ensinar tudo. Então, os conteúdos devem ser redefinidos em função das discussões da proposta pedagógica (PPP).

Quem diz as frases 2 e 3 acredita em duas coisas sem fundamento na vida real: primeiro, que a escola “de antigamente” era ótima (o que é falso, pois era altamente excludente; o Brasil foi um dos últimos países industrializados a universalizar o acesso ao ensino fundamental, e os leitores mais velhos se lembram de que antigamente para entrar na quinta série era preciso fazer um mini-vestibular, pois não havia vagas nem para a metade das crianças); segundo, que a avaliação (confundida com simples nota) é arma de intimidação do professor contra os alunos. Dessa forma se compreende como é possível alguém validar a frase 5, pois somente quem é incapaz de avaliar criticamente seu próprio trabalho pode crer que a avaliação se resume às provas e que a função da prova é simplesmente premiar os “bons” e punir os “maus”.

A frase 6 (embora em tom de brincadeira) reflete as imposições descabidas (e cada vez mais frequentes) de algumas autoridades educacionais, à revelia de qualquer consulta aos profissionais da educação e mesmo ao arrepio de tudo quanto se pesquisa e se sabe sobre educação e avaliação hoje em dia. Esse engessamento, essas cangas que se colocam cada vez mais sobre o professor retiram-lhe totalmente a autonomia para planejar o ensino. São imposições que violam frontalmente a LDBEN, como é evidente. Assim mesmo, a frase escancara a distorção: a avaliação se esvazia em um ritual burocrático de “dar nota”. Constata-se o total abandono da função primordial da avaliação, isto é, apurar em que medida os OBJETIVOS delineados no plano de aula pelo professor estão sendo alcançados, de modo a reorientar o planejamento. Sem reflexão, não há objetivos, não se olha para as necessidades dos alunos concretos, não se examina a realidade social que vivemos, não é necessário planejar uma metodologia, não há propriamente avaliação. Há apenas notas e conteúdos.

Nós mesmos estamos ensinando aos alunos que cada atividade escolar tem seu “preço”, como em uma espécie de pagamento em prestações para “passar de ano”. Aí, torna-se irrelevante saber se os alunos estão aprendendo ou não algo válido para sua formação como pessoas, como cidadãos. E eles, os alunos, aprendem isso rapidinho e passam a fazer somente o que “vale nota”.

Vamos encarar os fatos: o Brasil sempre teve taxas de reprovação muito mais elevadas que a média mundial. Em 26/04/2006, o jornal Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u18571.shtml) informava que nós ainda reprovamos mais os alunos do que o Camboja, o Haiti ou Uganda. Entre 177 países, só 45 tem taxas de reprovação superiores a 10 %. O Brasil emplacou 21% de crianças reprovadas. Onde está a tal “lei que proíbe a reprovação”? O Chile reprova 2 % e a Argentina 6 %, ainda de acordo com aquela reportagem. Ou a nossa forma de trabalhar e as nossas condições de trabalho na escola estão erradas ou o nosso povo é mais burro que os outros. Qual a explicação mais provável?

Evidentemente, a cultura da reprovação é que está equivocada. Muita gente acha que professor bom é o que reprova bastante. É como dizer que o melhor médico é o que mata o maior número de pacientes. Mas, pelo contrário, professor é para ensinar, e médico é para curar.

Reprovar demais representa um custo irracional na vida de cada aluno e também para o país. Mas, ao invés de melhorar a formação inicial, os salários e as condições de trabalho dos professores, os governos de todos os níveis (com raras exceções) empenharam-se em piorar essas condições objetivas, durante muitos anos. Criaram as famosas licenciaturas curtas, permitiram a abertura de péssimas faculdades e mantiveram salários defasados, fazendo com que a profissão deixasse de ser atraente para os jovens, construíram escolas ruins e nunca se preocuparam efetivamente em dotá-las de bibliotecas e outros recursos indispensáveis.

Agora, muitas autoridades pelo país afora declararam aberta a temporada de caça ao professor. A culpa pelo péssimo estado da educação é atribuída aos professores, individualmente. E em lugar de verdadeiras políticas públicas, criam-se prêmios daquilo, prêmios disso. Instala-se diante das câmeras de TV um equipamentozinho barato aqui, outro ali. Apenas ilusões. E, sem compreender minimamente o fenômeno da educação, multiplicam exigências burocráticas sobre os professores. Mas descumprem as mais elementares normas dos planos de carreira – deixando de avaliar sistematicamente os profissionais, por exemplo. Se há maus professores, como passaram no estágio probatório de três anos?

Só há uma forma de escaparmos dessa armadilha: fazer valer nossa dignidade profissional. Unirmo-nos com todos os companheiros e companheiras que possuam compromisso com a transformação dessa realidade injusta em que vivemos, criar propostas de formação continuada e reavaliar corajosamente as nossas concepções e práticas de avaliação. Os sindicatos que representam os professores precisam ser fortemente pressionados pelas bases para defender essas propostas, caso contrário não sairão do lugar.

André Augusto da Fonseca.





Rever o currículo, rever os métodos da escola

10 04 2010

Uma das atividades em que mais deveria ser privilegiada a reflexão sobre a prática seria a educação. Um trabalho que não passa pela reflexão (que é feito “como nos mandam fazer”, ou sobre o qual não temos controle) não exige compreensão de suas finalidades. Esse é o trabalho alienado, que desumaniza em vez de humanizar ou dignificar o homem.

No entanto, como já alertava Saviani há mais de vinte anos, a complexidade e o peso do trabalho exercido pelos profissionais da educação, em condições materiais adversas e com uma formação inicial que nem sempre foi a ideal, fazem com que seja muito fácil cair em uma atividade rotineira, sem sentido nem para o docente nem para os alunos.

Quando não sabemos responder a pergunta clássica dos alunos (“- Professor, por que estamos estudando isso?”), temos uma indicação claríssima de que perdemos o rumo. E não adianta responder que “É porque cai no vestibular”, ou “Porque sempre estudamos isso na sétima série” ou apelar para outras evasivas semelhantes. É natural que não saibamos o porquê de um conteúdo se não fomos nós que o escolhemos.

Ao abrir mão de sua autonomia para planejar o ensino, o professor deixa de ser um profissional, na verdadeira acepção da palavra, que significa controle sobre a atividade desempenhada, conhecimento sólido sobre o ofício. Ele pode passar a ser um robô do livro didático, do sistema apostilado ou dos “Circuitos Campeões” da vida. E um piloto de livro didático ou um simples tarefeiro não precisa ser bem remunerado. Aliás, não precisa nem de formação em nível superior.

Precisamos retomar a luta coletiva para repudiar essas imposições que, depois de colonizar a escola particular, estão tomando a rede pública de assalto. A categoria dos professores precisa levantar a cabeça, reavaliar criticamente as práticas de sala de aula e das escolas, formular propostas de formação continuada, reorganizar os tempos e espaços da sala de aula, enfim, construir a proposta pedagógica de cada escola. Essa luta é coletiva e precisa conquistar espaços como o Conselho Estadual de Educação. É necessário pressionar os órgãos de representação de classe, como o Sinter, para que cumpram sua função. A aparente calma que vivemos hoje esconde uma tragédia diária, traduzida na falta de aprendizagem dos alunos, na exaustão dos trabalhadores da educação e na descrença sobre as possibilidades de transformação da realidade.

Se os professores estão se desgastando terrivelmente por conta da irracionalidade dos horários, das exigências burocráticas, da falta de condições materiais, é preciso articular-se com os colegas que ainda não perderam a vontade de lutar. Trabalhei dez anos no ensino fundamental, em diferentes escolas públicas de periferia. Em uma delas conseguimos, por exemplo, perceber que as salas-ambiente racionalizavam o uso dos materiais didáticos. Na minha sala ambiente de História e Geografia, tínhamos todos os mapas, o globo, as maquetes e os cartazes feitos pelos alunos. Lutamos para a secretaria de educação conceder a autonomia a que tínhamos direito pela LDBEN para rever os horários. Aumentamos o recreio para vinte minutos, uma necessidade de alunos e professores, transformando o recreio em um momento educativo. Igualamos o tempo de todas as disciplinas, tendo dessa forma uma hora e cinquenta minutos de aula para cada uma delas. Tempo que passou a permitir o uso de diferentes estratégias metodológicas – teatro, filme-debate, júri simulado, saídas de campo, visitas à biblioteca e ao laboratório e muito mais. Diminuímos as exigências burocráticas, passando a ter três entregas de boletins anualmente, ao invés de quatro. Assim tínhamos mais tempo para uma verdadeira avaliação. Para tudo isso tínhamos argumentos teóricos, práticos e legais

Mas para chegar a esse ponto, as reuniões pedagógicas tinham que ser verdadeiramente momentos de estudo e de decisões coletivas. O tempo de planejamento e estudo era sagrado. Os professores menos comprometidos acabavam se integrando às discussões.
E você, o que pensa de tudo isso? Vamos à luta?

André Augusto da Fonseca. Professor na Pedagogia (Faculdade Atual) e na História (UFRR). Licenciado em História (UFF), Mestre em Educação (UFRGS). andreaugfonseca@gmail.com (publicado na Folha de Boa Vista em 29 de março de 2010).