Afinal, são todos santos?

27 08 2010

comentário perfeito do Angeli sobre a alienação política...

Somente as candidaturas do PCO e o candidato a Senador pelo PSOL foram impugnadas em Roraima, pelo jeito. Dois partidos que não tem nenhum registro de envolvimento com corrupção, mas que tem compromisso com os movimentos sociais e com o socialismo. Esses não podem concorrer, diz nosso excelso judiciário, sempre alerta, rigoroso e coerente.

Ao mesmo tempo, indivíduos que foram presos (algemados) na operação Gafanhoto, gente acusada de explorar trabalho escravo em fazenda, pessoas que já governaram o estado e foram acusadas de fazer a festa (literalmente) com os recursos públicos estão lépidos e fagueiros. Todos com a ficha limpíssima (ou ficha LAVOU, TÁ NOVO!).

No horário eleitoral gratuito, na televisão, um candidato diz que é hora de RENOVAR, de dizer NÃO à corrupção – com a foto de um candidato alvo de 21 processos ao lado. Outro reclama que a educação e a saúde estão muito ruins – com a foto do atual governador ao seu lado.

TODOS dizem que defendem a SAÚDE, A EDUCAÇÃO E A SEGURANÇA. É o mantra repetido a cada eleição. Já era para termos a melhor saúde, a melhor educação e a melhor segurança do mundo!

Ambos os candidatos que lideram a corrida ao governo se consideram herdeiros de Ottomar, que, como sabemos, era um santo (quase um deus). Ninguém questiona qualquer candidato sobre os inúmeros escândalos de corrupção e incompetência protagonizados em Roraima nos últimos trinta anos. Para toda a imprensa e para todos os candidatos das coligações mais fortes, é normal que os telefones das escolas e do Decon estejam cortados há meses por falta de pagamento. Que os computadores das escolas não estejam ligados por falta de instalação elétrica adequada. Que as viaturas de polícia, em determinados munícipios, não tenham gasolina. Que a polícia técnica e o IML sejam quase inoperantes por absoluta falta de condições de trabalho. Ninguém é responsável.

Agora, é impressionante a perseguição que sofrem nossos pobres e exaustos políticos de Roraima (“pobres” é liberdade poética). Digite os nomes de alguns de nossos ilustres parlamentares (estaduais ou federais) no Google e choverão indicações de sites com acusações sobre nossos inocentes representantes. Pura má-vontade, preconceito contra os valorosos políticos roraimenses.

Em abril, o CQC deu o prêmio ficha suja ao nosso digníssimo ex-deputado Neudo Campos, o mais votado em 2006 e agora postulante a mais um mandato como governador. Só porque ele responde a 21 processos, vê se isso é motivo para chamar alguém de ficha suja! Suja mesmo, só se tivesse, digamos, uns 250 processos, né? Não faz diferença, 21 ou 250, não vão dar em nada mesmo em nosso rigoroso, implacável e veloz poder judiciário.

Em um site, vejo que “Urzeni Rocha […] responde a cinco inquéritos no STF, por crimes como peculato e formação de quadrilha”, e participa da COMISSÃO DE ÉTICA da Câmara. Clique aqui para ver a lista dos inquéritos.

Em outro site, leio que “Fiscalizações nas propriedades do deputado federal Urzeni Rocha (PSDB-RR) e do prefeito de Toledo (MG), Vicente Pereira De Souza Neto (PSDB), libertaram 47 de trabalho escravo. Quatro vítimas eram jovens com menos de 18 anos”.

No site da eBand, sou informado de que Márcio Junqueira e José Reinaldo Pereira são acusados de compra de votos: “De acordo com a acusação, foram encontrados 2.400 envelopes, com R$ 100 cada, que serviriam para pagar eleitores”, nas eleições de 2006. Ora, senhores, o que isso prova? Encontrar 2400 envelopes contendo, cada um, cem reais, na véspera da eleição? Isso não prova nada! Podia ser uma festa de São Cosme e Damião fora de época, o cara não teve tempo de comprar os docinhos e guloseimas, e resolveu botar dinheiro vivo nos envelopes…

A revista Carta Capital, por sua vez, implicou com nossa primeira-dama, só porque ela contratou o MC Sapão (não conheço, mas deve ser muito bom, pois a primeira-dama sempre mostrou uma cultura refinada e um bom gosto acima de qualquer discussão) para sua festa particular e depois o colocou no jatinho do governo para voltar para o sudeste do Brasil.

Gente, é muita perseguição, né? É o UOL, a BAND, o STF, o Ministério do Trabalho, a REPÓRTER BRASIL, a Polícia Federal, tanta gente acusando nossos deputadozinhos injustamente, atrapalhando o trabalho deles, puxa…

Uma moradora da zona oeste que conversava comigo disse – com toda naturalidade – que na última eleição o voto estava custando 250 reais. É por isso que os políticos começam seu discurso com “Meu caro eleitor…”

Já que todos são santos e ninguém será responsabilizado mesmo, tenho uma hipótese para explicar o fenômeno de venda de votos: são marcianos que compram os votos dos eleitores de Roraima! Isso mesmo! A cada dois anos, os ETs aparecem nas ruas da capital e do interior, na véspera da eleição, e oferecem dinheiro, gasolina, transporte ou outras benesses por votos. Pronto. Só pode ser isso, um plano para os aliens conquistarem a Terra (começando por Roraima). É a explicação mais plausível.

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As eleições otomanas

5 08 2010

Caros leitores: conforme havia prometido, estou transcrevendo aos poucos os manuscritos do emissário português que, no século XVIII, viveu no norte da Anatólia, coletando e enviando informações a Lisboa (e ao Marquês de Pombal) a respeito dos costumes e das possibilidades comerciais da cidade de Sinop. Abaixo, vocês poderão ler mais uma curiosa anotação de seus diários, a respeito dos exóticos hábitos e tradições dos habitantes de Sinop.

“Sinope, Império do Grão-Turco, dezessete de outubro de 1764.

Em Sinop, há uma pitoresca tradição que rege os rituais de escolha do bei da cidade, do paxá da província e dos integrantes do divã ou assembleia local. Houve um tempo, dizem-me os nativos, em que o bei e o paxá eram escolhidos direta e discricionariamente pelo Sultão de Constantinopla, mas já vai para vinte anos que os dignatários da província são escolhidos aqui mesmo. Chamam o ritual de eleição, mas não há nada que possa lembrar, como pareceria aos desavisados, a vontade geral daquele perigoso filósofo francês ou a antiga democracia ática. Se Aristóteles fosse chamado a classificar o regime local, diria que não se trata de uma monarquia nem, muito menos de uma democracia, mas uma variante de governo oligárquico: uma plutocracia, ou seja, o governo dos mais ricos.

O ritual começa com a apresentação dos candidatos, que são mais ou menos os mesmos a cada quatro anos. Há uma cerimônia denominada de “impugnação”, que não se destina, de forma alguma, a eliminar os mais corruptos, venais ou ofensivos ao erário público, mas sim a impedir a candidatura daqueles que se equivocaram em alguma vírgula nos inúmeros documentos, carimbos, certidões e selos que são exigidos para a candidatura. Em seguida, há um período de algumas semanas em que os postulantes espalham pela cidade efígies de si mesmos com seu nome e o cargo pretendido. É rigorosamente proibido a eles explicar como se portarão realmente se eleitos, detalhar o seu programa ou propor qualquer mudança significativa no sistema de governo ou na estrutura social do império otomano. No dia daquilo que chamam de eleição, os candidatos mais ricos saem a oferecer dinheiro e bens para os cidadãos de Sinop. Vence o certame aquele que conseguir comprar mais votos e carregá-los para as urnas. Dessa forma, a cada quatro anos aumentam os custos desse curioso ritual, e somente os que tem mais dinheiro conseguem conquistar os cobiçados cargos.

Meu amigo Fadel, que estudou na Madrassa local, me mostrou um antigo e esquecido manuscrito, atribuído ao mais sábio dos Ulemás de Sinop, contendo um fatwah ou decreto religioso com dez mandamentos para os eleitores da província. Procurei traduzi-lo a seguir:

DECÁLOGO DAS ELEIÇÕES

1.Não votareis nos fanfarrões que prometem melhorar a saúde, a educação e a segurança, e que, quando puderam fazer algo por essas causas, nada fizeram.
2.Não dareis vosso apoio a ladrões nem aos que acobertam ladrões.
3.Não apoiareis mandriões que insuflam o ódio aos habitantes originários desta terra.
4.Não elegereis incompetentes que já provaram ser completamente incapazes de governar ou legislar.
5.Não vendereis vosso voto.
6.Não prometereis ajuda aos que aplicam golpes na cidade.
7.Não escolhereis como representantes a criaturas que enriqueceram repentinamente, desprezando as leis humanas e as leis divinas.
8.Desconfiareis daqueles que se apoiam na fé e na religiosidade dos inocentes, mas pretendem apenas roubar.
9.Esclarecereis a todos os irmãos sobre a iniquidade daqueles que pedem o voto dos incautos com palavras vazias.
10.Acompanhareis o candidato que elegerdes em seu mandato, fiscalizando e cobrando o cumprimento do prometido.

Alah Akbahr!”