A trepidante política cultural de nosso estado

31 10 2011

Sábado passado resolvi dar uma de turista. Passei pelas principais atrações culturais e esportivas da cidade. Não cheguei muito perto do Canarinho – confesso que não sou corajoso a ponto de entrar em edifícios condenados.

Já no desconjuntado Teatro Carlos Gomes, que já teve dias melhores, tirei algumas fotos. Vê-se que a programação do teatro está “bombando”.

Já cheio de orgulho e gratidão pelo excelente trabalho de nossas autoridades estaduais e municipais, dirigi-me ao Palácio da Cultura Nenê Macagge, mas estava fechado. Lembrei-me de que não se encontra para aquisição um único livro de Nenê Macagge, nossa maior escritora. Simplesmente, seus livros não são reeditados. Mas para quê, né? Basta ver as capas dos livros pela vitrine que montaram no Palácio da Cultura.

Dizia a Folha de Boa Vista em 25 de fevereiro de 2011: “Durante o ensaio para a colação de formatura de dez turmas da Universidade Federal de Roraima (UFRR), que aconteceria na noite de ontem, uma parte do forro do auditório desabou.” (para ver a matéria e a foto do teto caído, vá em http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=104110&sms_ss=facebook&at_xt=4d67b1660fdf698e%2C0).

Isso mostra o enorme valor que nossos governantes conferem à cultura em nosso estado! Cada vez mais feliz com nossa classe política, caminhei até a Casa de Cultura Madre Leotávia:

Antiga residência do governador do território, Casa de Cultura está abandonada

Não cheguei muito perto, claro, por medo de cair um pedaço do reboco na minha cabeça. Mas essa Casa de Cultura, abandonada há tempos, é o melhor retrato da proposta cultural de nossa classe política. É ou não é?

Em abril de 2010, “o Ministério Público Estadual (MPE) protocolou ação civil pública contra o Estado de Roraima para obrigá-lo a reformar a Casa de Cultura Madre Leotávia Zoller, por descumprimento da legislação estadual no que tange à conservação de patrimônio cultural devidamente tombado como “patrimônio cultural dos roraimenses”.” A notícia está na Folha: http://www.folhabv.com.br/Noticia_Impressa.php?id=100271

Decidi caminhar um pouco no Parque Anauá. Lá encontrei a Escola de Música, super bem conservada, vejam só:

Confiante na competência de nossos gestores culturais, passei pelo ginásio Totozão, interditado há mais de um ano. Como fiquei satisfeito em ver o cuidado que nossas autoridades tem com o dinheiro público. Reportagem da Folha também elogia o bom trabalho dos gestores: http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=94953

Vejam como está bem cuidada a entrada do Ginásio e seu jardim:

Finalizei meu passeio no Museu Integrado de Roraima. O ÚNICO museu do estado está fechado por tempo indeterminado. Um simpático recado na entrada presta contas ao distinto público:

Cartaz na entrada do único museu de RR

Não entendo as críticas que fazem a nossos chefes do executivo, municipal e estadual. Afinal, o trabalho deles é tão bom que o povo os reelegeu! Infelizmente, não podemos reelegê-los de novo.. Que pena. Mas certamente nosso prefeito e nosso governador deixaram marcas profundas em nossa terra. Como Átila, o huno, e o furacão Katrina, suas passagens serão lembradas pela posteridade.

De minha parte fiquei tão emocionado com o trabalho de alta qualidade de nossos gestores que comecei a chorar. De raiva.





Grupo de Trabalho e Discussão em Ensino de História: conclusões

28 10 2011

Durante a VII Semana de História da UFRR, tivemos um produtivo debate sobre o ensino de História hoje em Roraima. Aqui segue o texto produzido coletivamente pelo GTD (Grupo de Trabalho e Discussão) a respeito desse tema:

RELATÓRIO FINAL GTD ENSINO DE HISTÓRIA E EDUCAÇÃO

Ao considerarmos as discussões propostas no grupo, identificamos a falta de parâmetros comuns e a consequente necessidade de reflexão coletiva sobre o ensino de História, em pontos que consideramos fundamentais para uma educação significativa e compromissada com a formação de cidadãos críticos e que compreendam o mundo em que vivem.

Um dos primeiros pontos discutidos trata da ideia equivocada de uma lista de conteúdos padronizada para todas as escolas, na pretensão de se evitar supostas “lacunas” nos conhecimentos históricos dos alunos (em uma evidente confusão entre conhecimento histórico e conteúdos). De forma unânime, considerou-se tal proposta inviável e indesejável, pois uma padronização não leva em consideração a realidade dos alunos concretos, desconsidera a necessidade e o direito à autonomia dos professores em planejar e selecionar conteúdos. Repudiamos toda tentativa de obstar essa autonomia, seja na forma de sistemas apostilados, imposição de listas de conteúdos ou outra medida autoritária. Somente aos Parâmetros Curriculares Nacionais e ao Projeto Pedagógico da escola, construído coletivamente, é que o planejamento do professor deve se subordinar.

Quando é desrespeitado o direito do professor de elaborar seu planejamento e selecionar conteúdos, de acordo com as necessidades dos alunos concretos, cabe ao professor reivindicar esse direito e exercê-lo no relacionamento com as coordenações pedagógicas, pais e alunos, respaldado pelo conhecimento específico da área, controle e domínio dos mecanismos didático-pedagógicos e adequação do plano de trabalho aos objetivos de ensino.

Juntamente com essa autonomia é imprescindível que o professor reconheça e assuma o seu papel de mediador e organizador do processo de construção do conhecimento dos alunos, na pretensão de que o aluno compreenda que é sujeito da História e do conhecimento histórico.

Com isso, assumimos que podemos tornar o ensino de História significativo para os alunos, a partir do momento em que eles se compreendem como sujeitos no processo histórico. O ensino de história pode garantir isso se o professor assumir o papel de mediador utilizando metodologias significativas para que o aluno compreenda sua inserção nesse processo.
No momento em que o professor adota essa atitude, acreditamos que uma avaliação significativa e verdadeira deve ser processual e considerar os objetivos propostos no seu planejamento.
Uma reflexão quanto aos problemas que infelizmente persistem no ensino de História em Roraima considerou questões voltadas ao tempo disponível para as aulas de História nas escolas, a falta de recursos e a necessidade de formação continuada.

O tempo disponível para o ensino de história (duas aulas semanais) é insuficiente. Uma vez que a organização do currículo privilegia algumas disciplinas em detrimento de outras, o professor de história tem de assumir mais turmas que um professor de matemática, por exemplo, e assim, disporá de menos tempo para os trabalhos de correção, leitura e planejamento necessários ao ensino de qualidade.

Entre os problemas apontados foi freqüente a citação da falta de recursos tanto nas escolas de rede pública municipal, estadual, como nas universidades que possuem o curso de História. Especificamente identificamos como necessidades mais urgentes em termos de recursos:

A) Acesso à internet como recurso para planejamento e execução do trabalho docente;
B) Projetor de imagens;
C) Mapas;
D) Acervo bibliográfico;

Na questão da formação verificamos que os professores necessitam de formação continuada para refletir sobre sua prática e adquirir conhecimentos técnicos sobre novas metodologias, emprego de determinados recursos tecnológicos para o ensino, etc. Verificamos isso com base tanto nas discussões sobre necessidades e dificuldades apresentadas pelos professores quanto pela leitura das observações e entrevistas que foram realizadas em salas de aula das escolas de rede pública e particular da cidade de Boa Vista no ano de 2010 por acadêmicos do curso de História da Universidade Federal de Roraima.

Sobre essas dificuldades, identificamos uma grande deficiência dos professores no que diz respeito à auto-avaliação: como não há um controle técnico-externo e como a atividade docente se dá de forma bastante solitária, os profissionais apresentaram muita incoerência em seus depoimentos. Por exemplo, um professor afirmava que os alunos sequer abriam o livro, porém elogiou o trabalho apresentado por eles.

Vale lembrar também há muitos profissionais formados em outras áreas lecionam história na rede pública estadual, o que certamente não contribui para a qualidade no ensino de História.

Ainda levando em conta essas observações e entrevistas, consideramos a ideia de que a melhoria da formação inicial é fundamental para o entendimento do docente quanto à finalidade do ensino de História e muitos professores não conseguiram, nas entrevistas, definir essa finalidade. Vimos que há uma dicotomia na relação entre a grade curricular de licenciatura em História e o trabalho exercido pelo professor no ensino básico. Nesse ponto, propomos que haja uma maior consideração nas disciplinas de Práticas e Metodologias, onde possamos trabalhar tanto a teoria e a prática educacional de forma significativa.

Outro aspecto importante é a relação da universidade com a sociedade, ou seja, a socialização do conhecimento produzido na comunidade acadêmica para a comunidade civil. É necessário que este conhecimento chegue à comunidade em geral.
As reflexões feitas pelo grupo propõem ainda que haja, de forma efetiva, o fortalecimento e união da classe em sindicatos e associações visando à luta contra as arbitrariedades impostas aos docentes tanto pelo governo quanto por algumas gestões escolares.

Reivindicamos melhorias na estrutura física das escolas, disponibilização de recursos metodológicos e a inclusão curricular da História Regional nas escolas, bem como a criação de bibliografias didáticas que tratem dessa temática.





Programação da Feira do Livro!

28 10 2011