“O mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, entre o fogo e o amor”

30 05 2011

A História sempre nos reserva surpresas. Em uma realidade cheia de contradições, o novo irrompe inesperadamente, abrindo possibilidades de se construir um mundo melhor ou de descambarmos para a barbárie.

Em janeiro, começou a grande insurreição árabe. Depois, as manifestações no Wisconsin, em reação ao imenso retrocesso nos direitos dos trabalhadores nos EUA. No Brasil, convivemos com as rebeliões de dezenas de milhares de trabalhadores nas grandes obras de infraestrutura e com o atraso dos ruralistas na destruição da legislação ambiental. O obscurantismo e a barbárie sob disfarce religioso, mas com a falta de criticidade e de uma mínima honestidade na análise dos fatos, aspectos que já tinham sido observados no segundo turno das eleições presidenciais do ano passado, voltaram a aparecer com força total no baixíssimo nível do desinformado debate sobre os materiais de combate à homofobia do MEC e do Ministério da Saúde.

Mas eis que, em maio, os levantes populares da Islândia, Grécia, Wisconsin, Egito, Tunísia, Iêmen, Líbia, Marrocos, Síria e Bahrein, ainda em chamas, continuam a ressoar… Agora na Porta do Sol em Madri – e em várias outras cidades espanholas!

Há coisas demais acontecendo.

Limitar-me-ei a indicar algumas análises muito ricas sobre os homens e as mulheres que se recusam a aceitar passivamente a opressão. “Os homens estão cá fora, estão na rua.”

As manifestações que denunciam a falsa democracia capitalista:
http://socialismo.org.br/portal/internacional/38-artigo/2058-maio-espanhol-as-portas-de-um-novo-tempo

Auditoria da dívida: temos que fazer no Brasil!
http://www.esquerda.net/artigo/equador-experi%C3%AAncia-da-auditoria-oficial-da-d%C3%ADvida-p%C3%BAblica

Análises do governo Dilma e seu conservadorismo:
http://socialismo.org.br/portal/ecologia/95-artigo/2055-codigo-florestal-base-do-governo-ou-governo-da-base

http://socialismo.org.br/portal/politica/47-artigo/2050-codigo-florestal-e-qkit-gayq-a-falencia-de-uma-governabilidade-conservadora

http://socialismo.org.br/portal/politica/47-artigo/2059-o-perfil-do-governo-dilma

http://socialismo.org.br/portal/questoes-de-genero/162-noticia/2056-dilma-e-a-homofobia





Um poema que sempre me emociona: Mundo grande (Carlos Drummond de Andrade)

30 05 2011

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

(fonte: http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema020.htm)





Modelo econômico predatório interessa a quem?

27 05 2011

Reproduzo abaixo bela análise do Ciro Campos sobre as ideias dos grandes latifundiários e seus aliados no Congresso e na Assembleia. A destruição da legislação ambiental terá um preço a ser pago por toda a sociedade ao longo de gerações, mas lucros rápidos a curto prazo para meia dúzia de irresponsáveis: fonte: http://www.folhabv.com.br/Noticia_Impressa.php?id=109231

Mudança apressada no Código Florestal pode ser ainda pior para Roraima

Ciro Campos *

A mudança do Código Florestal Brasileiro, prestes a ser votada de modo apressado pelo congresso, é considerada exagerada e perigosa por cientistas, ambientalistas e por técnicos do governo federal, mas alguns políticos de Roraima conseguiram convencer Aldo Rebelo que ainda é pouco. Em entrevista ao jornal Folha de Boa Vista, em 10 de maio, o relator disse que defende a aprovação de uma emenda que permita ao estado desmatar 20% de seu território, ou 4,5 milhões de hectares. Segundo o relator, a falta de áreas para produzir, devido às demarcações de terras indígenas e unidades de conservação, condena o estado a ser uma espécie de “Parque Nacional do Brasil”, incapaz de produzir a farinha de mandioca que seu povo come: “Acho um escândalo não atender o que Roraima está pedindo porque é o mínimo”.

Esta meia verdade que está sendo repetida por Aldo Rebelo já foi analisada e desmentida por ocasião do julgamento do caso Raposa Serra do Sol. Embora seja verdade que a agricultura hoje não consiga tornar o estado auto-suficiente na produção de alimentos, não é verdade que o motivo seja a falta de terras, pois os dados oficiais mostram que apenas 10% da área desmatada em Roraima é usada pela agricultura. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que o desmatamento acumulado alcança cerca de 900 mil hectares nas áreas de floresta, e um recente estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Instituto Socioambiental (ISA) mostra que nas áreas de savana esse número supera 200 mil hectares, resultando em pelo menos 1,1 milhão de hectares já derrubados no estado. Por outro lado, o anuário “Roraima em Números – 2010”, documento oficial disponível na página do governo estadual, mostra que a área cultivada com as 14 principais culturas é de 53 mil hectares, enquanto os “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do Brasil – IBGE 2010” revelam que a área total das lavouras do estado seria de 116 mil hectares.

Se toda a área cultivada em Roraima representa apenas 10% do que já foi derrubado, é evidente que o problema da agricultura não é a falta de terras para plantar, pois a área disponível seria suficiente para alimentar o povo (450 mil habitantes) e ainda exportar alimentos. Isso, claro, se a política agrária fosse efetivamente implementada e os agricultores familiares tivessem os meios para produzir, com acesso a financiamento, assistência técnica, boas estradas, saúde, educação, e não fossem obrigados a ficar migrando de lote em lote deixando atrás de si as grandes fazendas que vão se formando, ou ainda migrar para a cidade agravando os problemas sociais. Enquanto a agricultura vai mal, a especulação imobiliária na zona rural se fortalece, a produção de madeira, principal item de exportação do estado, ganha impulso, e o que era floresta em terras públicas vira pasto em novos latifúndios.

O estado de Roraima está na vanguarda quando o assunto é reduzir a proteção ao meio ambiente. Um exemplo disso é o fato de que parte das propostas defendidas pelo setor ruralista para as mudanças no Código Florestal Brasileiro já estão contempladas em algumas leis estaduais aprovadas recentemente, como a anistia indiscriminada ao desmatamento e a redução da proteção na beira dos rios. O rio Branco, por exemplo, o maior rio do estado, que banha a capital, abastece a população e tem mais de mil metros de largura, teve a proteção nas suas margens reduzida de 500 metros para apenas 50 metros, e ainda passou a receber 100% do esgoto da capital, lançado diretamente e sem nenhum tratamento, mas com licença ambiental do estado.

Levando em conta que Roraima tem 22,4 milhões de hectares e que 46% dessa área está fora de terras indígenas e unidades de conservação (exceto APA), a aplicação do Código Florestal atual ainda permite ao estado derrubar cerca de 1 milhão de hectares e dobrar sua área desmatada, legalmente. Mas o que Aldo defende e chama de “o mínimo” é o direito para derrubar mais de 3 milhões de hectares, triplicando o que ainda poderia ser desmatado. Não é possível usar o exemplo de Roraima para justificar a necessidade de se reduzir a proteção da natureza. Isso atenta não apenas contra a qualidade de vida das gerações de hoje e amanhã, mas também contra a própria produtividade agrícola, que precisa de um ambiente equilibrado para manter as boas safras. Quando os setores mais conservadores da política roraimense começam a influenciar a política nacional a ponto de interferir no julgamento do relator do novo Código Florestal, é hora de ficarmos realmente amedrontados com o futuro do nosso país.

* Biólogo do ISA – Instituto Socioambiental. http://www.socioambiental.org (21/05/2011)





Não existe um “livro didático que ensina a escrever errado”: veja o artigo da Daniela

18 05 2011

“Por uma vida melhor”: por que abolir os conceitos de “certo” e “errado”

(A respeito de uma polêmica em que muita gente já falou besteira demais, reproduzo a seguir texto publicado em http://cloacanews.blogspot.com/2011/05/nos-roubemo-as-palavra-de-outro-blog.html e também em http://somosmulheresdefibra.blogspot.com/)
Por Daniela Jakubaszko*, do blog Mulheres de Fibra

A polêmica que se criou em torno do livro Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, adotado pelo MEC, é inútil e representa um retrocesso para a Educação.

Como lingüista e professora de português defendo ardorosamente a utilização do livro. Vou explicar, mas antes faço alguns esclarecimentos:

1. A escola é o lugar por excelência da norma culta, é lá que devemos aprender a utilizá-la, isso ninguém discute, é fato.

2. O livro NÃO está propondo que o aluno escreva “nós pega” – como estão divulgando por aí – ele está apenas constatando a existência da expressão no registro “popular”. Do ponto de vista cotidiano, a expressão é válida porque dá conta de comunicar o que se propõe. E ela é mais que comum e, sejamos sinceros, é a linguagem que o leitor dessa obra usa e entende. Será que é intenção da escola se comunicar com ele de verdade? Se for, ela tem que usar um livro que consiga fazer isso. Uma gramática cheia de exemplos eruditos e termos que o aluno não consegue nem memorizar, com certeza, não vai conseguir.

3. O que o livro está propondo é trocar as noções de “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado”. E isso é mais que certo. Vou explicar a seguir.

4. A questão é: como ensinar a norma culta num país de tradição oral, e no qual existe um abismo entre a língua oral e a língua escrita? Como fazer isso com jovens adultos – que já apresentam um histórico de “fracasso” em seu processo formal de educação e, muito provavelmente, na aquisição dos termos da gramática e seus significados. Se esse jovem não assimilou até o momento em que procurou o EJA (Educação de Jovens e Adultos) a “concordância de número”, como o professor vai fazê-lo usar a crase? Isso para mencionar apenas um dos tópicos mais fáceis da gramática e que a maioria das pessoas, inclusive as “mais cultas e graduadas”, algumas até mesmo com doutorado, ainda não sabem explicar quando ela é necessária.

Por que abolir os conceitos de “certo” e “errado”?

Vou mencionar apenas 3 razões, para não cansar demais o leitor, mas existem muitas outras, quem se interessar pode perguntar que eu passo a bibliografia.

1. Primeiro, por uma questão de honestidade com o aluno. A língua é viva, assim como a cultura, e não pode ser dirigida, por mais que tentem. Por isso, não existe nem “certo” nem “errado”: as regras são convenções e são alteradas de tempos em tempos por um acordo entre países falantes de uma mesma língua. O que era “errado” há alguns anos, hoje pode ser “certo”. Agora é correto escrever lingüística sem trema – o que discordo – e ideia sem acento. Assim, o que existe é o “adequado à norma culta” e o “inadequado à norma culta”. E essa norma é uma convenção, não uma lei natural e imutável. Além disso, por mais que a escola seja representante da norma culta, isto não significa que ela deva ficar “surda” diante dos demais níveis de fala. A língua portuguesa – ou qualquer língua – não pode ser reduzida à sua variante padrão. Tão pouco as aulas de português devem ficar. Afinal, se numa narrativa aparece um personagem, por exemplo, pescador e analfabeto, como o aluno deverá escrever uma fala (verossímil) para ele? Escrever de forma inverossímil é certo? Aliás, o que seria dos poetas e escritores se não fosse o registro popular da língua? Acho que Guimarães Rosa nem existiria.

Com certeza a crítica ao livro parte de setores conservadores e normativos. Eu, como lingüista e professora, não apoio a retirada dos livros porque não acho justo falar para o aluno que o jeito que ele fala é errado, até porque não é, só não está de acordo com a norma culta, o que é muito diferente. Depois que você explica isso para o aluno é que ele entende o que está fazendo naquela aula. Essa troca faz toda a diferença.

2. Segundo, porque quando você diz para um aluno sucessivas vezes que o que ele fez está “errado” você passa por cima da subjetividade dele e acaba com toda a naturalidade dessa pessoa. Daí, ela não fala “certo” e também não sabe quando fala “errado”. Assim, quando na presença de pessoas que ela julga mais letradas que ela própria, não tenha dúvida, vai ficar muda. A formação da identidade do sujeito passa obrigatoriamente pela aquisição da linguagem, viver apontando os erros é desconsiderar a experiência de vida daquela pessoa, é diminuí-la porque ela não teve estudo. E não se engane: ela pode se tornar até uma profissional mais desejada pelo mercado por usar melhor a norma culta, mas não necessariamente vai se tornar uma pessoa melhor.

3. Em terceiro, porque é urgente trocar o ponto de vista normativo pelo científico. A lingüística reconhece que a língua tem seu curso e muda conforme o uso e a cultura: já foi muito errado falar (e escrever) “você”, por exemplo. A lingüística também reconhece que a língua é instrumento de poder, por isso, nada mais importante do que desmistificar a gramática normativa. Isto não significa deixá-la de lado, mas precisamos exercitar uma visão mais crítica. Esse aluno sente na pele a discriminação social devido ao seu nível de fala, nada mais natural que ele rejeite a norma culta e considere pedante a pessoa que fala segundo a norma padrão. É compreensível, ainda, que ele não entenda grande parte do que se diz em sala de aula. O que não é compreensível é o professor, ou melhor, “a Escola”, não entender a razão de isso acontecer.

Em nenhum momento foi dito que a professora e autora do livro em questão não iria corrigir ou ensinar a norma culta aos alunos, só ficou validado o registro oral. Os alunos precisam entrar em contato com o distanciamento científico. E os lingüistas não saem por aí corrigindo ninguém, eles observam, e você, leitor, bem sabe como funciona a ciência – e um aluno de pelo menos 15 anos já precisa começar a ouvir falar do pensamento científico. Além disso, é muito bom que eles percebam se o nível de fala que usam tem prestígio ou não, e o porquê.

Por que ignorar o estudo da língua oral em sala de aula? Eu fazia um trabalho nesse sentido com os meus alunos e só depois de transcrever entrevistas orais eles conseguiam ouvir a si mesmos e tomar consciência de seu registro lingüístico: “nossa, como eu falo gíria! Eu nem percebia!”. Aí sim eles entendem que, com o amigo, com os pais, eles podem dizer “os peixe”, mas que na prova é preciso escrever “os peixes”, no seminário é preciso dizer “os peixes”, mas ele precisa estar à vontade para fazer isso. A realidade em sala de aula é que os alunos não entendem onde estão errando. Quando você explica o conceito de norma culta eles entendem. Cria-se um parâmetro e não uma tábua de salvação inatingível. É aceitando o registro desse interlocutor e apresentando mais uma possibilidade de uso da língua para ele que vai surgir o esforço para aprender. Se você insistir no “certo” e no “errado” ele vai ficar com raiva e rejeitar o novo. Quer apostar?

Ter uma boa comunicação não é sinônimo de usar bem as regras da gramática. Para ensinar os conceitos de “gramática natural” e “gramática normativa” temos de dar esses exemplos. Os conservadores se arrepiam porque eles partem do princípio que você nunca pode escrever ou falar nada errado na frente do aluno. Para mim isso é hipocrisia: o aluno tem direito de saber que o registro que ele usa em casa é diferente daquele que ele usa na rua, no estádio de futebol, na escola, no trabalho, em frente ao juiz. E tem o direito de saber que o “correto” se define por aquele que tem mais prestígio social. Essas são só as primeiras noções de sociolingüística, para quem quiser abrir a cabeça e saber. Ou será que a língua portuguesa se aprende descolada da realidade? É isso que se está tentando mudar. É tão difícil assim perceber isso?

Quando me perguntam qual é a função do professor de português na escola, eu respondo: oferecer ao aluno um grau cada vez mais elevado de consciência lingüística; oferecer instrumentos para que ele possa transitar conscientemente entre os diversos níveis de linguagem. Só depois de realizada essa operação o aluno vai conseguir escrever conforme as regras da norma culta. E falar a norma padrão com naturalidade. Ou, ainda, escolher falar conforme o ambiente em que cresceu e formou a sua subjetividade (Lula que o diga, comunica-se muito bem, sem camuflar as suas origens). É bom ficar claro que a função do professor não se reduz a “corrigir” o aluno. Isso, o google, até o word, pode fazer. Ajudar o aluno a ter consciência de seu nível de fala é outra história…

O problema não é uma pessoa dizer “nós pega”, o problema é ela não entender que esse uso não é adequado em determinados contextos, o problema é não saber dizer “nós pegamos”. Ou sequer compreender porque não pode falar “nós pega”… É, leitor, tem muito aluno que não entende porque precisa aprender uma lista de nomes difíceis que nada significam para ele e que ele não enxerga a relação direta entre uso da norma culta e como esta vai ajudá-lo a melhorar de vida.

Conheço quilos, ou toneladas, de gente formada, pós-graduada, que fala “seje” e não tem consciência de que está falando assim, e ainda critica quem fala “menas”. Ouvir a si mesmo é uma das coisas mais difíceis de fazer. E como ajudar o aluno a fazer isso?
O primeiro passo é, sem dúvida, abolir o “certo” e o “errado”. Enquanto o professor for detentor da caneta vermelha, o aluno vai tremer diante dele e nada do que ele disser vai entrar na cabeça dessa pessoa preocupada em acertar uma coisa que não entende, tem vergonha de dizer que não entende, então não pergunta, faz que entendeu, erra na prova e o resultado é ela se achar cada vez mais burra e desistir de estudar. Ufa… Puxa, ninguém estuda mais psicologia da educação? Isso é básico!

E então, leitor, o que é mais honesto com esse aluno que chega na EJA com a autoestima lá em baixo? Começar falando a língua dele e depois trazê-lo para a norma padrão ou começar de cara a humilhá-lo com uma língua que ele não entende?

É muito sério quando pessoas leigas começam a emitir, levianamente, juízos de valor sobre assuntos que não dominam. Alguns jornalistas, blogueiros e “opineiros” de plantão, por exemplo, sem conhecimento dos conceitos e técnicas de ensino em lingüística, sem a menor noção do que está acontecendo nas salas de aula desse país, começam a querer dizer para os professores o que eles têm de fazer, como eles têm de ensinar! Isto sim, é nivelar por baixo! É detonar, mais ainda, a autoridade do professor, já tão desprezada no país. Ah, e ainda fazem isso sem perceber que freqüentemente cometem erros crassos; eu estou cansada de lê-los em blogs, jornais e revistas, e ouvi-los na televisão. Não que precisem, ou usamos com eles os mesmos critérios que defendem?

E então, qual é mesmo o tipo de educação que o Brasil precisa?

* Daniela Jakubaszko é bacharel em lingüística e português pela FFLCH-USP, mestre e doutora pela ECA-USP.





Convite: grupo de estudos marxistas

6 05 2011

Encontros semanais do Coletivo Práxis: estudo e prática da teoria marxiana

Textos, filmes e debates, toda sexta-feira, de 14h30 às 16h30, na UFRR (sala 151, Bloco I).

Precisamos nos unir para promover a reflexão sobre o mundo cada vez mais absurdo em que vivemos. Em meio à caótica sucessão de (des)informações, de acontecimentos aparentemente desconexos, assistimos à degradação do espírito crítico no próprio ensino superior, cada vez mais aligeirado e “pasteurizado”. Entre as opções do conformismo bovino e do voluntarismo sectário e fanático, queremos preservar a tradição racionalista do humanismo e do iluminismo, na sua vertente de esquerda, e compreender melhor a contribuição de Marx para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Queres participar dessa empreitada conosco?





“Olho por olho e acabaremos todos cegos” (Gandhi)

5 05 2011

Ok. Os Estados Unidos tem apoiado, financiado e treinado grupos e governos terroristas nos últimos 60 anos. Alguém vai pagar por isso? Bin Laden era um terrorista. E o governo dos EUA? Seu apoio ao Taleban, a Sadam Hussein, Pinochet e tantos outros deve ser esquecido?

E quanto à “operação” que assassinou Bin Laden? Assim como seu aluno, Uribe, que ordenou que forças colombianas entrassem sem autorização no vizinho Equador para assassinar opositores, o governo dos EUA e o governo de Israel tem estabelecido como normalidade o ato de entrar em qualquer país e assassinar quem eles queiram, sem julgamento, sem lei. Isso é diferente do que Bin Laden fez? Afora a quantidade de vítimas e o poder de fogo dessas potências, o que as diferencia, moralmente, de terroristas como Bin Laden?

Por que EUA e Israel são praticamente os únicos países que não aceitam o Tribunal Penal Internacional? Por que eles violam continuamente as resoluções da ONU? Por que só eles podem ter arsenais nucleares à vontade?

São perguntas que raramente vemos na mídia empresarial submissa. Mas se o governo dos EUA instaura e legitima o vale-tudo, precisamos nos perguntar sobre quem é a maior ameaça à segurança e à estabilidade mundiais.

O melhor comentário talvez seja a charge do gaúcho Santiago, feita há tempos atrás mas infelizmente sempre atual:

* CORREÇÃO: com base no blog da Mariafro, eu tinha dito aqui que o nosso Chanceler tinha considerado “positiva” a operação totalmente ilegal e imoral dos EUA. Mas não consegui confirmar essa afirmação em lugar algum. Pode ter havido um engano ou uma manipulação das palavras de Patriota. Peço desculpas aos leitores por ter acreditado na informação do referido blog sem confirmá-la primeiro.