São João da Baliza: o que fazer com nossos municípios?

18 01 2012

Estou a ministrar uma disciplina de História no “campus” da UERR em São João da Baliza (RR). Até o momento o registro acadêmico não soube informar quantos alunos estão efetivamente matriculados na disciplina. De qualquer forma, só um aluno apareceu mesmo até hoje (terceiro dia da disciplina).

Como de praxe na maioria dos municípios do interior, a cidade não parece oferecer muitas perspectivas a seus habitantes. Ruas (muito) esburacadas, praças e obras governamentais abandonadas, grandes áreas desmatadas e depois deixadas ao domínio da capoeira e das ervas daninhas. O próprio site da prefeitura mostra como foto de divulgação da cidade uma rua em situação lastimável (http://www.pmsaojoaodabaliza.com.br/novo_site/popup.php?ID=9). O prédio da polícia militar está em péssimas condições. Nas escolas públicas, a mesma situação de muitas escolas da capital: paredes sujas, excrementos de pombo acumulados nos cantos. Falta energia elétrica com alguma frequência. A cidade é (des)servida pelos ônibus sucateados da Eucatur e por aquelas vans precárias e xexelentas. Já viajei em pé de São Luís a Boa Vista (mais de 8 horas de viagem), pois a Eucatur não vê nenhum problema em vender mais passagens que lugares. É impossível crer na existência de qualquer tipo de fiscalização dessa porca empresa de ônibus, que mostra total desprezo pelos passageiros. Fala-se em vastas áreas de lotes destinados ao assentamento comprados irregularmente por determinados deputados, que formaram dessa maneira grandes latifúndios.

Centro de São João da Baliza (RR)

O comércio da cidade parece ser bem movimentado e algumas casas estão bem cuidadas. O que mais chamou a atenção ao chegar na casa de apoio (alojamento dos professores) foi o gramado, a ausência de muros e uma bela samaúma no pátio. Infelizmente, um colega professor já me alertou que essa calma é enganadora, pois sua máquina de lavar já foi roubada de sua casa.

O prédio da UERR é vistoso, situado logo na entrada da cidade. Conta com umas dez salas de aula, espaço para biblioteca e para um auditório, bem como para umas 2 ou 3 salas administrativas. Tanto a área livre para uma possível expansão quanto o auditório foram subdimensionados, como de hábito. O prédio já foi planejado sem salas para os professores. Um loteamento está sendo aberto logo nos fundos do prédio e um estranho posto de gasolina quase fecha a frente do “campus”. As instalações são improvisadas. Ao que parece, um trator do loteamento vizinho destruiu o encanamento do prédio, deixando a universidade sem água. E ficou por isso mesmo. Os banheiros tem luzes de acendimento automático, acionadas por sensor de movimento – mas não há verba para papel-toalha. Cheguei em um domingo chuvoso, o que permitiu ver com meus próprios olhos como a tempestade entra livremente pela cobertura do prédio, formando uma cachoeira nas escadas e alagando parcialmente os corredores. A compra dos móveis está atrasada há mais de um ano, o que é alegado como justificativa para o fato deste prédio – e mais uns 4 ou 5 idênticos em outras cidades do interior – nunca terem sido inaugurados, apesar de estarem praticamente prontos.

Fui informado que os prédios dos campi de São João e Rorainópolis foram ocupados pelos alunos, cansados de ver o patrimônio público ser dilapidado pela ação do tempo, permanecendo em dependências improvisadas e dilapidadas de uma escola estadual. Com o fato consumado pelos alunos, organizados em um centro acadêmico, o diretor – homem honesto, competente e zeloso – tenta em vão sensibilizar as instâncias superiores a liberar recursos para reparos emergenciais. Ele e os funcionários esforçam-se ao máximo para garantir a limpeza e a organização do ambiente. Com todas as dificuldades, mostram empenho, lealdade e profissionalismo.

Com o mais recente concurso de professores da UERR, realizado em 2011, um grande número de mestres e doutores de São Paulo, Minas Gerais e outros estados vieram morar em Roraima. Vários fixaram residência no interior, cheios de energia, conhecimento e vontade de contribuir no desenvolvimento da universidade e do povo roraimense. Mas até que ponto uma universidade sozinha pode atuar como indutora de desenvolvimento? Como enfrentar o câncer da incompetência administrativa, da corrupção e do desperdício de dinheiro público que devasta Roraima? Até quando esses valorosos professores ficarão na UERR se não houver condições mínimas de trabalho?

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4 responses

20 01 2012
Kezia Lima

Deprimente a descrição e o desabafo. Me pergunto sempre quando é que esse Estado vai levar à sério a Educação?
Uma coisa descrita que me deixa bastante esperançosa é que, mesmo timidamente, ainda existem lideranças que lutam e cobram o que lhe é de direito!
Uma das minhas pretensões como educadora é enfatizar aos meus alunos o máximo possível o nosso papel como cidadãos! Vamos cobrar, analisar, criticar… exigir aos representantes políticos o que é direito e não um favor!
Como sempre, muito bom o texto, André!

23 01 2012
andreaugfonseca

Essa diferença entre direito e privilégio, entre direito e concessão é fundamental. Com certeza você será uma ótima educadora. E obrigado pelo carinho… Beijo.

21 10 2012
Cristiani

André, vc já está aqui há algum tempo e ainda continua na luta, não sei se, realmente, nós, que chegamos agora, teremos essa resistência que vc apresenta. O pior é a resignação dessas pessoas que moram no interior, considerando tudo como normalidade e como se isso fosse vida. O que leva esses professores que estão nos cargos de direção e coordenação de São João da Baliza ou qualquer outro interior serem convenientes com a situação? Não estaria na hora de eles mesmos levantarem a bandeira de uma nova Uerr em vez de se preocuparem tto com interiorização ou em agradar o reitor?

22 10 2012
andreaugfonseca

Prezada Cris:
Bem, nem todos estão resignados. Acho que precisamos continuar tentando dialogar com todos os concursados. Posso estar sendo ingênuo, mas em algum momento essas pessoas decidirão juntar-se a nós… Abraço!

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