Dilma é vítima da falta de escrúpulos de Serra

10 10 2010

Dilma, assim como Lula, não é a presidente ideal. Simplesmente porque o próprio sistema político não é o ideal. Mas não hesito nem por um segundo: votarei nela.

Em uma perspectiva histórica, estamos diante de uma opção semelhante àquela que os homens e mulheres de esquerda enfrentaram ao ter que decidir entre Vargas e a UDN; entre JK e a UDN; entre Jango e a UDN. Em outras palavras, entre diferentes versões de nacional-desenvolvimentismo (com defesa da soberania e uma arena aberta para as lutas dos trabalhadores) e a extrema-direitam, os elementos mais reacionários do país (com o entreguismo sôfrego das riquezas nacionais e a criminalização dos movimentos sociais). Hoje, Dilma representa a linha nacional-desenvolvimentista, que é obviamente menos concentradora de riqueza que o outro projeto, o de Serra, herdeiro da UDN.

Aliás, Serra é uma versão piorada do golpismo de direita da UDN. É inacreditável que o fundamentalismo religioso, a ignorância e o obscurantismo sejam as principais armas de Serra para forçar um segundo turno. Seu discurso agora limita-se a fingir que não tem EXATAMENTE A MESMA OPINIÃO DE DILMA SOBRE O ABORTO: Serra, quando ministro, admitiu que o aborto não assistido é uma questão de saúde pública, uma vez que é uma das principais causas de morte de mulheres jovens (Norma Técnica para Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual contra Mulheres e Meninas, 1998). Corretamente, tomou medidas para a rede do SUS atender às mulheres por complicações pós-aborto e, principalmente, para fazer o procedimento correto nos casos em que o aborto NÃO É CRIME, conforme estabelece o código penal desde 1940. Agora, ele finge que vai fazer a sociedade brasileira regredir 70 anos, em nome de um princípio teocrático: que as opções de UM culto religioso devem ditar as políticas públicas do país…

Países fortemente católicos como Portugal já descriminalizaram o aborto (e a prática do aborto não aumentou por causa disso). Em nosso país, preferimos a hipocrisia. Milhões de abortos acontecem todos os anos. Para Fátima Oliveira (http://www.ipas.org.br/arquivos/10anos/Oliveira2004.pdf), “o aborto – expressão radical de resistência – é uma experiência milenar de milhões de mulheres, que expõe dilemas morais e visibiliza que não é ético obrigar a mulher a levar adiante uma gravidez quando ela não quer ou não pode. As interdições ao aborto não impedem sua realização, apenas tornam-no clandestino e inseguro, penalizando as pobres, que recorrem aos piores lugares, arriscando a saúde e a vida.”

Sobre a união civil homossexual, parece-me que a histeria contrária à ampliação de direitos é ainda mais absurda. Se, no caso do aborto, há ainda uma discussão sobre o direito à vida do feto (o que é, na minha opinião, despropositado, pois até a 12a semana não há sistema nervoso no feto e, portanto, não há vida – pois a morte cerebral é considerada morte, permitindo inclusive a doação de órgãos), sem dúvida não se pode impor a toda a sociedade os tabus ou preconceitos de uma parte dela! É óbvio que a união civil homossexual não prejudica outros grupos ou indivíduos… Para aceitar os argumentos preconceituosos sobre os supostos efeitos da união civil sobre filhos adotados seria preciso fechar os olhos para a realidade: a quase totalidade dos crescentes casos de violência contra a mulher e de abusos sexuais contra crianças são praticados por homens heterossexuais… Covardes que se acham muito “machos”…

O próprio Serra, que usa o tema para assustar os conservadores, já tinha dito antes que apóia a união civil homossexual:
“Em um encontro com líderes das comunidades homossexuais e com os organizadores da maior manifestação gay do mundo, Serra afirmou que é “propício” à união estável entre pessoas do mesmo sexo e adiantou: “Temos um projeto sobre isso, está realmente andando porque o apoiamos”. Foi durante a Parada do Orgulho Gay de SP, em 2009 (clique aqui para conferir). Diante de 3,5 milhões de manifestantes, ele disse o que queriam ouvir, né? Agora, para agradar aos conservadores, ele diz exatamente o contrário. O cara não tem escrúpulos mesmo… Foi ele que jurou que iria completar o mandato de prefeito de SP, jamais interrompendo a administração para se candidatar ao governo estadual. Registrou a promessa em cartório! E fez exatamente o contrário. Não é à toa que diz agora que vai aumentar o salário mínimo em x%. Ele não liga a mínima para o que ele mesmo diz…

Gostei da charge do Latuff que, como sempre, vai direto ao ponto:

Dize-me com quem andas, e te direi quem és...

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