As eleições otomanas

5 08 2010

Caros leitores: conforme havia prometido, estou transcrevendo aos poucos os manuscritos do emissário português que, no século XVIII, viveu no norte da Anatólia, coletando e enviando informações a Lisboa (e ao Marquês de Pombal) a respeito dos costumes e das possibilidades comerciais da cidade de Sinop. Abaixo, vocês poderão ler mais uma curiosa anotação de seus diários, a respeito dos exóticos hábitos e tradições dos habitantes de Sinop.

“Sinope, Império do Grão-Turco, dezessete de outubro de 1764.

Em Sinop, há uma pitoresca tradição que rege os rituais de escolha do bei da cidade, do paxá da província e dos integrantes do divã ou assembleia local. Houve um tempo, dizem-me os nativos, em que o bei e o paxá eram escolhidos direta e discricionariamente pelo Sultão de Constantinopla, mas já vai para vinte anos que os dignatários da província são escolhidos aqui mesmo. Chamam o ritual de eleição, mas não há nada que possa lembrar, como pareceria aos desavisados, a vontade geral daquele perigoso filósofo francês ou a antiga democracia ática. Se Aristóteles fosse chamado a classificar o regime local, diria que não se trata de uma monarquia nem, muito menos de uma democracia, mas uma variante de governo oligárquico: uma plutocracia, ou seja, o governo dos mais ricos.

O ritual começa com a apresentação dos candidatos, que são mais ou menos os mesmos a cada quatro anos. Há uma cerimônia denominada de “impugnação”, que não se destina, de forma alguma, a eliminar os mais corruptos, venais ou ofensivos ao erário público, mas sim a impedir a candidatura daqueles que se equivocaram em alguma vírgula nos inúmeros documentos, carimbos, certidões e selos que são exigidos para a candidatura. Em seguida, há um período de algumas semanas em que os postulantes espalham pela cidade efígies de si mesmos com seu nome e o cargo pretendido. É rigorosamente proibido a eles explicar como se portarão realmente se eleitos, detalhar o seu programa ou propor qualquer mudança significativa no sistema de governo ou na estrutura social do império otomano. No dia daquilo que chamam de eleição, os candidatos mais ricos saem a oferecer dinheiro e bens para os cidadãos de Sinop. Vence o certame aquele que conseguir comprar mais votos e carregá-los para as urnas. Dessa forma, a cada quatro anos aumentam os custos desse curioso ritual, e somente os que tem mais dinheiro conseguem conquistar os cobiçados cargos.

Meu amigo Fadel, que estudou na Madrassa local, me mostrou um antigo e esquecido manuscrito, atribuído ao mais sábio dos Ulemás de Sinop, contendo um fatwah ou decreto religioso com dez mandamentos para os eleitores da província. Procurei traduzi-lo a seguir:

DECÁLOGO DAS ELEIÇÕES

1.Não votareis nos fanfarrões que prometem melhorar a saúde, a educação e a segurança, e que, quando puderam fazer algo por essas causas, nada fizeram.
2.Não dareis vosso apoio a ladrões nem aos que acobertam ladrões.
3.Não apoiareis mandriões que insuflam o ódio aos habitantes originários desta terra.
4.Não elegereis incompetentes que já provaram ser completamente incapazes de governar ou legislar.
5.Não vendereis vosso voto.
6.Não prometereis ajuda aos que aplicam golpes na cidade.
7.Não escolhereis como representantes a criaturas que enriqueceram repentinamente, desprezando as leis humanas e as leis divinas.
8.Desconfiareis daqueles que se apoiam na fé e na religiosidade dos inocentes, mas pretendem apenas roubar.
9.Esclarecereis a todos os irmãos sobre a iniquidade daqueles que pedem o voto dos incautos com palavras vazias.
10.Acompanhareis o candidato que elegerdes em seu mandato, fiscalizando e cobrando o cumprimento do prometido.

Alah Akbahr!”

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