Rever o currículo, rever os métodos da escola

10 04 2010

Uma das atividades em que mais deveria ser privilegiada a reflexão sobre a prática seria a educação. Um trabalho que não passa pela reflexão (que é feito “como nos mandam fazer”, ou sobre o qual não temos controle) não exige compreensão de suas finalidades. Esse é o trabalho alienado, que desumaniza em vez de humanizar ou dignificar o homem.

No entanto, como já alertava Saviani há mais de vinte anos, a complexidade e o peso do trabalho exercido pelos profissionais da educação, em condições materiais adversas e com uma formação inicial que nem sempre foi a ideal, fazem com que seja muito fácil cair em uma atividade rotineira, sem sentido nem para o docente nem para os alunos.

Quando não sabemos responder a pergunta clássica dos alunos (“- Professor, por que estamos estudando isso?”), temos uma indicação claríssima de que perdemos o rumo. E não adianta responder que “É porque cai no vestibular”, ou “Porque sempre estudamos isso na sétima série” ou apelar para outras evasivas semelhantes. É natural que não saibamos o porquê de um conteúdo se não fomos nós que o escolhemos.

Ao abrir mão de sua autonomia para planejar o ensino, o professor deixa de ser um profissional, na verdadeira acepção da palavra, que significa controle sobre a atividade desempenhada, conhecimento sólido sobre o ofício. Ele pode passar a ser um robô do livro didático, do sistema apostilado ou dos “Circuitos Campeões” da vida. E um piloto de livro didático ou um simples tarefeiro não precisa ser bem remunerado. Aliás, não precisa nem de formação em nível superior.

Precisamos retomar a luta coletiva para repudiar essas imposições que, depois de colonizar a escola particular, estão tomando a rede pública de assalto. A categoria dos professores precisa levantar a cabeça, reavaliar criticamente as práticas de sala de aula e das escolas, formular propostas de formação continuada, reorganizar os tempos e espaços da sala de aula, enfim, construir a proposta pedagógica de cada escola. Essa luta é coletiva e precisa conquistar espaços como o Conselho Estadual de Educação. É necessário pressionar os órgãos de representação de classe, como o Sinter, para que cumpram sua função. A aparente calma que vivemos hoje esconde uma tragédia diária, traduzida na falta de aprendizagem dos alunos, na exaustão dos trabalhadores da educação e na descrença sobre as possibilidades de transformação da realidade.

Se os professores estão se desgastando terrivelmente por conta da irracionalidade dos horários, das exigências burocráticas, da falta de condições materiais, é preciso articular-se com os colegas que ainda não perderam a vontade de lutar. Trabalhei dez anos no ensino fundamental, em diferentes escolas públicas de periferia. Em uma delas conseguimos, por exemplo, perceber que as salas-ambiente racionalizavam o uso dos materiais didáticos. Na minha sala ambiente de História e Geografia, tínhamos todos os mapas, o globo, as maquetes e os cartazes feitos pelos alunos. Lutamos para a secretaria de educação conceder a autonomia a que tínhamos direito pela LDBEN para rever os horários. Aumentamos o recreio para vinte minutos, uma necessidade de alunos e professores, transformando o recreio em um momento educativo. Igualamos o tempo de todas as disciplinas, tendo dessa forma uma hora e cinquenta minutos de aula para cada uma delas. Tempo que passou a permitir o uso de diferentes estratégias metodológicas – teatro, filme-debate, júri simulado, saídas de campo, visitas à biblioteca e ao laboratório e muito mais. Diminuímos as exigências burocráticas, passando a ter três entregas de boletins anualmente, ao invés de quatro. Assim tínhamos mais tempo para uma verdadeira avaliação. Para tudo isso tínhamos argumentos teóricos, práticos e legais

Mas para chegar a esse ponto, as reuniões pedagógicas tinham que ser verdadeiramente momentos de estudo e de decisões coletivas. O tempo de planejamento e estudo era sagrado. Os professores menos comprometidos acabavam se integrando às discussões.
E você, o que pensa de tudo isso? Vamos à luta?

André Augusto da Fonseca. Professor na Pedagogia (Faculdade Atual) e na História (UFRR). Licenciado em História (UFF), Mestre em Educação (UFRGS). andreaugfonseca@gmail.com (publicado na Folha de Boa Vista em 29 de março de 2010).

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