OS MANUSCRITOS DE SINOP: parte I

10 04 2010

Prezados leitores do blog:

Como anunciei anteriormente, estou tentando transcrever alguns velhos manuscritos, deixados por um oficial português setecentista e encontrados por acaso em um velho sebo. Completamente absorvido pelo trabalho na faculdade, ainda não tinha conseguido tempo para esse trabalho, que é muito mais penoso do que eu imaginava a princípio. Os papeis estão em mau estado e me fazem espirrar o tempo todo, e a escrita é bem diferente da nossa… Não havia ainda uma ortografia padronizada da língua portuguesa, talvez, no século XVIII. Sou um ignorante sobre esses assuntos, assim como não domino a arte da paleografia. Para culminar, os manuscritos, cujo conteúdo se assemelha a um diário, estão completamente fora de ordem cronológica. Acredito, entretanto, ter encontrado o primeiro registro desse material, que transcrevo a seguir:

Sinope, Império do Grão-Turco, sete de outubro de 1764.

Tendo chegado nesta cidade há onze dias, encontro-me bem instalado na casa de uns anciões que me acolheram muito bem, ainda mais depois de eu ter pago seis meses de aluguel adiantado.

A cidade de Sinope é muito antiga. Povoada há mais de dois mil anos pelos gregos, foi tomada pelos turcos em 1458. Hoje, é parte do extremo norte desse império dos infiéis, seguidores de Mafoma [grafia lusa antiga do nome de Mohamed, o profeta – NT], e os gregos, que são cristãos, ainda que hereges, são bastante maltratados pelos turcos. Eles, que eram donos de todas as terras por aqui, vivem em pequenas áreas que lhes foram destinadas pelos novos senhores.

A cidade de Sinop é bem fortificada, e um porto importante por onde passam os produtos de todo o norte do império turco para os países mais ao norte do Mar Negro. Há uns venezianos que tem seus negócios por aqui, e bem sei o quanto será difícil para os súditos del-Rey de Portugal se estabelecerem aqui. Mas venho conversando com as autoridades locais, inclusive com o paxá, que se mostrou muito interessado em romper o monopólio desses velhacos venezianos, embora não se mostre muito confiante na capacidade de nossos mercadores em substituí-los.
Os que mandam por aqui dividem-se em dois grupos. Um deles é liderado por algumas famílias que vieram da ilha de Creta, sendo conhecidos aqui como cretinos, enquanto o outro é formado por um clã que tem origem na Capadócia, mais a nordeste. Assim, nesta terra que se despovoou com a conquista, grande parte da população é de gente que se mudou há poucas gerações, e o paxá, seus assistentes e ministros são sempre ou cretinos ou capadócios.

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