Greve e Coerência

18 09 2009

Nesta semana encerrou-se um capítulo da luta dos trabalhadores em educação. No momento, uma batalha ideológica, travada no campo da comunicação, foi vencida pelo conservadorismo. Como se sabe, em qualquer sociedade de classes a hegemonia ou dominação de um grupo social por outro só pode se manter se houver um certo nível de consentimento. Ou seja, não se pode manter a dominação de classe somente pelo uso da força. A ideologia da classe dominante, sua visão de mundo e a forma como ela justifica a perversidade da ordem social vigente exigem a adesão das demais classes.

Em nosso tempo e em nossa sociedade, essa ideologia dominante tem como linhas mestras o individualismo e a naturalização da injustiça social. Essa forma de ver a realidade social desmobiliza qualquer iniciativa de mudança; esvazia as lutas coletivas; estabelece como valor maior e forma de realização pessoal o consumo, a aquisição contínua de mercadorias como única forma de atingir a felicidade e convence a muitos de que “você não pode mudar o mundo”. Como se o mundo não estivesse mudando o tempo todo, desde sempre…

Contra todas as evidências cotidianas, passamos a acreditar que as desigualdades sociais, a miséria, a fome e o desemprego são frutos de diferenças de mérito pessoal. Desta forma, o desemprego é culpa individual do desempregado, que não buscou sua qualificação para se oferecer no mercado de trabalho; pela ótica individualista, a pobreza não resulta da forma como a sociedade está organizada, da forma como aqueles que já estão incluídos garantem as melhores oportunidades de educação e saúde para os seus filhos, ausentando-se da luta pela melhoria dessas oportunidades para todos.

Essa visão de mundo é compartilhada até mesmo por muitos dos dominados e dos oprimidos, mesmo no Brasil, a sociedade mais desigual do mundo, na qual a maioria das pessoas acha natural que um funcionário de escola concursado receba menos de 500 reais por mês enquanto determinadas categorias de servidores estaduais recebem salários quinze ou vinte vezes maiores.

Em uma sociedade como essa, embora os dominados sejam a maioria, não é sua voz que predomina nos meios de comunicação associados à formação da “opinião pública”. Há poucos dias, por exemplo, uma colunista social deplorou no jornal a greve dos trabalhadores em educação porque esse movimento iria atrapalhar a organização do concurso de beleza “Miss e Mister Estudantil”. Sua visão sobre o que é fundamental na educação é compartilhada por muita gente que forma a tal “opinião pública”.

Um comunicador, em um programa local de TV, regozijava-se com a decretação da ilegalidade da greve, exclamando: “Agora eu quero ver! Vocês vão ter que voltar para a sala de aula!!!” Para ele e para muitos que fizeram concurso para professor mas fazem tudo para estar em um gabinete refrigerado em uma função burocrática, estar em sala de aula é uma punição. Para mim e para muitos professores, é um momento gratificante, de realização pessoal. A diferença é entre os que tem uma visão individualista, do vale-tudo-para-se-dar-bem, e aqueles que acreditam na capacidade dos homens e das mulheres em mudar a realidade social.

Na Folha de Boa Vista de 16 de setembro, lemos que uma promotora associa a greve dos trabalhadores em educação ao aumento dos delitos praticados por jovens na capital. Aparentemente, se os filhos da classe trabalhadora não são mantidos ocupados nas escolas (mesmo sem as mínimas condições materiais para a atividade educativa), automaticamente serão atraídos para a criminalidade. Nesse caso, todas as outras instâncias socializadoras de nossa cultura estariam falidas: as famílias, as igrejas, as associações de todos os tipos, as formas de lazer… No entanto, quando determinadas escolas particulares, frequentadas por quem pode pagar, fecharam as portas por causa da influenza A, alunos também ficaram sem aula. Mas ninguém apontou uma correlação entre o fato daquelas crianças e adolescentes ficarem em casa e um aumento de delitos praticados por jovens. Afinal, eram filhos de “pessoas de bem”, não é mesmo?

Estrategicamente, os porta-vozes dos interesses anti-povo cuidaram sempre de omitir que a greve não era apenas dos professores, mas também dos funcionários de escola. Claro que era melhor, para desacreditar a greve, apresentar os professores como egoístas e gananciosos, para jogar os pais e alunos contra o movimento. Mostrar que a greve era também dos funcionários concursados, que recebem salários de fome (R$ 419,00 líquidos), poderia despertar simpatia pelos grevistas. Igualmente, era necessário comparar a remuneração dos professores de Roraima com a de professores de outros estados, que recebem salários vergonhosos; não se poderia comparar o salário do professor daqui com o de outros servidores com o mesmo nível de formação, pois isso carrearia apoio à greve. Por fim, como o maior argumento anti-greve era o de que o estado “não tem dinheiro” para atender as reivindicações, era imprescindível pedir que o distinto púbico fechasse os olhos para os muitos milhões de reais desperdiçados pelo estado em publicidade ou em shows como o de Fábio Júnior, um mimo para o baile dos médicos, fartamente anunciado na capital.

Valores republicanos, como o princípio da igualdade (ou ao menos de equalização de oportunidades), o tratamento institucional, aberto e franco dos conflitos existentes na sociedade, a excelência dos serviços prestados pelo Estado e o respeito pelo dinheiro público, a transparência na aplicação desse dinheiro, estão sendo profundamente corroídos há muito tempo. Afastamo-nos dos princípios afirmados pela Revolução Francesa e nos aproximamos mais de uma sociedade do tipo feudal, na qual os privilégios de determinadas classes ou estamentos são cada vez mais ampliados e as diferenças sociais se aprofundam e se enrijecem.

Nem todos os integrantes de uma classe social tem consciência de classe. Nem todos os integrantes de uma categoria profissional em greve partilham dos mesmos objetivos. Alguns podem ser bons profissionais, outros não – cabe ao estado fazer uma avaliação contínua e rigorosa para garantir que os usuários do serviço público tenham seu direito à educação atendido (aliás, a devida aplicação dessa avaliação, para efetivar o plano de carreira, era um dos pontos reivindicados). Muitos grevistas estavam genuinamente empenhados em fazer com que o governo cedesse nos pontos que diziam respeito às condições de trabalho, à merenda dos alunos, à gestão democrática; outros poderiam estar mais preocupados com a questão salarial.

Nitidamente, porém, neste embate entre governo e parte da mídia, de um lado, e trabalhadores, alunos e pais de outro, eram os professores que estavam do lado dos valores republicanos. Que outro grupo ou indivíduo, hoje, zela pela aplicação devida dos recursos destinados à educação? Quem, senão os trabalhadores organizados, alerta a população sobre a real condição das escolas da capital e do interior? Quem, senão os sindicalizados, fiscaliza efetivamente o executivo estadual nos Conselhos da Alimentação Escolar e do FUNDEB?

O que tenho a dizer aos trabalhadores em educação, como professor e como cidadão, é que a luta continua, por outros meios. É necessário vencer a batalha simbólica, da comunicação, escancarando para a sociedade local a verdadeira situação do ensino público em nosso estado. Se não há material com que escrever no quadro, o professor não deve comprar esse material, cujo fornecimento é dever do estado. Se não há papel, não há prova. Se a merenda não vem ou não está própria para o consumo, deve-se convocar uma reunião de pais. Se não há cadeiras, não há aula – os alunos não podem ser obrigados a sentar-se no chão. Sobretudo, devemos nos convencer de que os pais e os alunos estão do nosso lado nessa luta, que é da classe trabalhadora como um todo.

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3 responses

19 09 2009
Osvaldo Rios

Um abraço professor e parabéns pelo trabalho de suma importância, pena que o discurso escrito não tenha tanto poder quanto o discurso falado.

22 09 2009
andreaugfonseca

Valeu, Osvaldo… Mas o debate escrito também é importante. Talvez mais do que a gente imagina. Abs.

16 11 2009
Érica Joyce R. Cavalcante

Gostei muito do Texto, retrata a sua defesa por uma Educação realmente de qualidade, por uma sociedade mais justa e menos desigual. Me orgulho de você !
Obrigada pelo apoio…amocê !

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