Políticos roraimenses ensinam que MOTESGUI foi um importante filósofo francês

13 09 2009

Pseudo-jornalismo e movimento social de araque

Hoje assistimos ao jornalismo fake do deputado Márcio Junqueira, em seu programa eleitoral denominado “Roraima Passado a Limpo”. Tudo é montado para parecer espontâneo, como se Junqueira fosse uma espécie de jornalista investigativo. Naturalmente, somente pessoas afinadas com seus pontos de vista são ouvidas.

Exploraram o sofrimento do pobre ex-posseiro da área do Caracaranã, de família tradicional na região, que conheci ainda criança, quando ia com minha família para aproveitar as praias do lago. Um homem honesto e conhecido por muita gente daqui.

Às custas do sofrimento daquela família, que mantinha uma infra-estrutura simples de alojamento e restaurante para os turistas que visitavam o lago, Junqueira e Faradilson protagonizaram uma comédia de mau gosto. Faradilson é a auto-denominada liderança de uma certa FAMER, Federação das Associações de Moradores do Estado de Roraima. Curiosamente, a FAMER tem se alinhado automaticamente a todas as causas mais reacionárias dos últimos anos – sempre como uma sombra das iniciativas de Junqueira. Vários outdoors foram espalhados pela cidade, assinados por essa federação, agradecendo e exaltando o referido deputado, quando da regularização da ocupação irregular que ficou conhecida como bairro São Bento. Agradeceram, por exemplo, o poço cavado, segundo eles, pelo deputado. Um poço escavado próximo da lagoa de estabilização que trata os esgotos de toda a cidade. Um ato de inaudita generosidade, sem dúvida.

O argumento é o mesmo de sempre: a homologação da terra indígena expropriou uma família de posse centenária, a terra indígena será administrada pela FUNAI e pelas ONGs estrangeiras etc.
Obviamente, o fato de que famílias indígenas vivem na região há muitos séculos, e não há apenas um século, foi considerado irrelevante pelo pseudo-jornalista.

Para fechar com chave de ouro, estamparam após os créditos do programa eleitoral a frase “Uma injustiça cometida a um indivíduo é uma injustiça cometida a todos”. Autoria: MOTESGUI. Como a picaretagem intelectual hoje em dia raramente é contestada, muita gente sente-se livre para fingir que conhece a obra de um autor clássico sem precisar ler nada.
A grafia do nome mostra a profundidade do conhecimento de Faradilson e Junqueira sobre a obra de Montesquieu. Eles tem a absoluta certeza de que somos todos idiotas.

Faradilson nos ensinou, ainda, que “na Europa grandes guerras foram travadas por menos do que isso” [a desintrusão de algumas famílias da terra indígena]. “Por exemplo,” disse ele com ar professoral, “o Kuwait entrou em guerra com o Iraque por causa de um único poço de petróleo”. Notável. Eu, na minha ignorância, julgava que o Kuwait e o Iraque ficavam na Ásia, e não na Europa. Se não fossem esses sábios, eu continuaria acreditando que o Iraque tinha ocupado todo o Kuwait, e não apenas um poço.

Na semana passada, Faradilson, sempre em nome dessa federação tão representativa que até hoje não conheci ninguém de qualquer bairro que tenha votado nele como seu representante, encenou outra comédia: à frente de vários ônibus cheios de crianças e adolescentes, tentou fazer uma provocação aos professores grevistas na praça do Centro Cívico. A pretensa manifestação seria apresentada como um protesto de pais e alunos contra a greve. O tiro saiu pela culatra: as crianças e os adolescentes, levados a um show de manipulação, possivelmente sem consentimento dos pais, estavam sem água, em meio ao forte calor. Foram pedir água aos professores, e disseram não saber para que estavam sendo levados ao centro da cidade! Vários disseram estar ao lado dos professores nessa greve, e uma adolescente inclusive pediu para subir ao carro de som, fazendo em seguida uma inflamada intervenção a favor da greve e contra a manipulação de que era vítima. Contam os presentes naquele dia que Faradilson tentou discursar contra a greve, mas foi abafado pelos aplausos irônicos dos professores. Uma comédia-pastelão como aquela só podia ser mesmo aplaudida, mas o tal líder ficou furioso, ao que consta.

Estranhamente, a FAMER nunca se pronunciou sobre as denúncias de merenda estragada, sobre o não-funcionamento do conselho do FUNDEB, sobre as denúncias de irregularidades nesse Fundo em Roraima ou sobre o salário de fome dos funcionários de escola concursados, que estariam recebendo 419 reais líquidos por mês. Tampouco se pronuncia quando os policiais militares que participaram da última greve denunciam perseguição política na corporação. É um silêncio ensurdecedor, como diria o velho reaça Nelson Rodrigues.

Não é a primeira nem a última vez que a direita e os donos do poder montam movimentos sociais de cima para baixo, artificialmente, para confundir a opinião pública. Não vou nem falar sobre a Sodiurr. No Chile, em 1973, a direita financiada pela CIA organizou greves para desestabilizar Allende, em uma conspiração que desgraçadamente foi muito bem-sucedida. A própria imprensa e o Congresso dos EUA divulgaram que a CIA pagou 4 milhões de dólares para ajudar os empresários dos transportes a manter o locaute que trouxe o caos ao abastecimento de alimentos e matérias primas em todo o país, pouco antes do golpe de 11 de setembro.

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