Mais um fake sobre a “Internacionalização da Amazônia”

22 06 2009


A internet, assim como o papel, aceita qualquer coisa. Há mensagens que, a exemplo dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, do Plano Cohen ou das Cartas Falsas, servem como espantalho para levar a opinião pública a abraçar determinadas causas conservadoras, que não ousam dizer seu nome. Sobre Roraima, temos as famosas “Diretrizes #4” de uma sinistra organização secreta (uma espécie de arqui-ONG), que em 1981 teria lançado um plano para internacionalizar a Amazônia, blá-blá-blá. Há o famigerado livro Máfia Verde, bancado por uma organização de direita dos EUA e lido pelos falsos nacionalistas daqui. E temos uma mensagem absurda, que circula há anos, atribuída a um(a) professor(a) do sul do país que teria ficado espantado com o que viu aqui.

Essa mensagem seria um “relato de uma pessoa conhecida”, enviado pelo amigo do amigo do amigo do conhecido do colega do vizinho. Possivelmente, apócrifa. Graças ao grande desconhecimento dos brasileiros sobre a história e a geografia de seu próprio país, o campo está aberto aos discursos mais delirantes, dentro e fora de Roraima. Como cidadão brasileiro, nascido e criado em Boa Vista, trabalhando e residindo na capital de Roraima, mais uma vez respondo a essa coleção de equívocos.

1) A relação entre migrantes e nativos é realmente a mais alta do Brasil, mas não é de 10 para 1. Na verdade, são aproximadamente 50% denativos e 50% de migrantes, segundo o IBGE. Em princípio, não vejo
problema nisso – São Paulo provavelmente já teve uma proporção semelhante entre nativos e migrantes. O estado inteiro de Roraima, há poucas décadas, não tinha mais que 50 mil habitantes. Hoje não chega a 500 mil.

2) 70% do território do estado como reserva indígena: falso. Somando-se as APAS (Áreas de Preservação Ambiental) nacionais e municipais, T.I.s (Terras Indígenas) e terras do Exército, chegamos a no máximo 53% do território. Qual seria o critério para se dizer que isso é “muito”? 200.000 hectares para um único latifundiário branco não é excessivo? Por que a monocultura da soja ou do arroz, lançando toneladas de agrotóxicos nos nossos rios e em nosso solo, destruindo as matas ciliares, é “bom” para a comunidade, para a espécie humana, e a preservação de todas as nascentes dos rios que banham o estado, da biodiversidade natural e da diversidade cultural seriam “ruins” para a oletividade, para a humanidade? Até quando vamos inverter a realidade e continuar dizendo que o interesse de meia dúzia de latifundiários deve se sobrepor ao interesse de milhões de pessoas e das futuras gerações?

A T.I. Raposa Serra Do Sol, por exemplo, tem uma população indígena de quase 20 mil pessoas. As pessoas não param para pensar que, se isso fosse um município, seria o terceiro mais populoso do estado de Roraima. É uma área com dezenas de postos de saúde, escolas, criação de gado (o maior rebanho do estado), produção de frutas, de mandioca… Há um negócio muito engraçado, aqui: quando vou a Manaus, escuto toda a classe política dizendo que o Amazonas é o estado do futuro – todos devem investir no estado, pois mais da metade do Amazonas está preservado em diversas APAs. Na Costa Rica, um dos maiores destinos de ecoturismo e turismo de aventura, também há um consenso sobre isso.

Quando volto a Roraima, escuto a atrasadíssima classe política local(super comprometida com seguidos escândalos de corrupção do tipo Gafanhotos) dizer que Roraima não em mais futuro, pois mais da metadedo estado está preservada. Quem enlouqueceu? Os políticos do Amazonas ou os de Roraima?

E mais: a área que fica de fora das APAs e T.I.s é equivalente à area total do estado de Pernambuco, que tem cerca de 10 milhões de habitantes. PE é um estado inviável? Se essa área é suficiente para 10 milhões de pessoas lá, não é suficiente para menos de meio milhão aqui???

Reinaldo Imbrozio, cientista do INPA, onde estão muitos de nossos melhores quadros de pesquisadores sobre a Amazônia, relaciona a resistência e a campanha virulenta contra as áreas de conservação e a visão de mundo e os interesses das oligarquias locais e nacionais, bem mais atrasadas do que qualquer homem de neanderthal. Parte da produção científica desse pesquisador e colaboradores encontra-se em http://agroeco.inpa.gov.br/reinaldo/Usuarios_Visitantes_RIB.htm

3) Na BR 174, realmente, há restrições ao tráfego de veículos particulares à noite. Mas por que a suposta autora da mensagem não conta a história da abertura dessa estrada, nos anos 70? Durante a ditadura, sem possibilidade de ação da imprensa, do Ministério Público ou de quem quer que seja, o exército cometeu ações genocidas. Não houve negociação. Pessoas da etnia waimiri atroari foram mortas em um número que jamais será conhecido. Metralhadora e arame eletrificado contra arco e flecha. Não é má fé ocultar essa história, que explica o acordo existente hoje para a passagem pela terra indígena? Eliminar o controle não daria nenhuma chance para a invasão, ocupação, desmatamento da área, criando um fato consumado e expulsando de vez a população nativa?

De qualquer forma, outras rodovias passam por terras indígenas sem qualquer restrição ao tráfego, como a RR-203, que liga a capital ao Amajari e à Serra do Tepequém.

4) “Você não passa se for brasileiro, o acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses […] Americanos entram na hora que quiserem, se você não tem uma autorização da FUNAI mas tem dos americanos então você pode entrar”: aí é mentira mesmo. Baseado em que o (a) autor(a) afirma isso?

5) Os mesmos políticos que alardeiam um suposto risco de “perda de soberania brasileira” sobre a Amazônia aprovaram alegremente a entrega, por FHC, do SIVAM à empresa estadunidense Raytheon, em prejuízo de um consórcio de empresas e universidades brasileiras. São os mesmos que aprovaram no Congresso a “flexibilização” da proibição de aquisição de terras por estrangeiros em faixa de fronteira. São os mesmos que se escandalizam com a política nacionalista e anti-ianque de Chávez, mas apóiam e elogiam as neocolônias dos EUA, a Colômbia e o México. São os mesmos que peregrinam por países estrangeiros, implorando para empresas alienígenas adquirirem terras a preço de banana ou gratuitamente mesmo, com renúncia fiscal e tudo o mais, para virem poluir e desmatar aqui. Uma empresa de capital suíço, por exemplo, transformou milhares de hectares de cerrado roraimense em uma monocultura de acácia negra australiana, para exportação de celulose; os mesmos políticos que são contra a terra indígena bajulam esse capital estrangeiro. São os mesmos que aprovaram todas as leis do pacote neoliberal nos anos 90, entregando de bandeja nossas riquezas aos estrangeiros. Como a privataria ou como a lei de patentes de 1996, que veio em inglês diretamente dos EUA, foi traduzida e aprovada a toque de caixa por um Congresso subserviente. O povo não ganhou nada, mas muitos dos políticos que aprovaram as privatizações na década de 1990 foram regiamente recompensados pelas empresas estrangeiras. O ex-governador do RS, Antônio Brito, por exemplo, ganhou um cargo no Conselho da empresa que ele mesmo entregou ao capital estrangeiro.

São os políticos da direita entreguista, velhos conhecidos. Desde os anos 50, desde o golpe de 64. São sempre os mesmos, com pouca variação ou aggiornamento do discurso. Os mais velhos foram morrendo, mas novas gerações de entreguistas floresceram. Não deveríamos nos deixar enganar por uma retórica tão pobre. O problema dessa gente nunca foi a soberania nacional, e sim o enriquecimento pessoal por meio da exploração predatória do Brasil.

Terras indígenas e APAs ficam excluídas do mercado capitalista. Não podem ser griladas. Esse é o problema.

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One response

23 06 2009
Vanderlise

Realmente, há tantos sites com (des)informações direitosas e até fascistas na internet, e o pior é que muitos tentam passar uma imagem nacionalista, ambientalista, e até com discursos contra o fascismo… mas trazem um discurso bem marcado pelo capitalismo de direita….
Fico me perguntando, porque nunca se houve nada a respeito da base áerea americana que ainda ocupa um vasto território no Amapá, e que não permite acesso de nenhum brasileiro em suas dependências, nem aos seus arquivos… chegando ao cumulo de impedir fotos dos predios e demais dependêcias… e nem se fala das mineradoras americanas que povoam o mesmo estado…e desmatam mesmo….deixando pra trás apenas buracos dentro da mata tropical.

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