Eunice Durham, Mulinari e algumas falácias sobre a Educação

23 03 2009

Na página 2 da Folha de Boa Vista de 18/03/2009, um artigo assinado pela professora Selma Mulinari ecoou uma entrevista de Eunice Durham, publicada na revista Veja em 22/11/2008. Não questiono a reputação intelectual da antropóloga Eunice Durham na sua área do conhecimento, embora considere genérica e fundamentalmente equivocada sua apreciação sobre as causas do péssimo estado em que se encontra a educação. Quanto à credibilidade da revista Veja, que não se envergonhou de estampar matéria sobre a educação assinada por duas jornalistas completamente ignorantes do assunto, desqualificando Paulo Freire como alguém que “não deu qualquer contribuição à humanidade, não passando de um propagandista”, é desnecessário tecer qualquer comentário. Basta que o leitor consulte, por exemplo, a página do respeitado jornalista Luís Nassif sobre o tipo de jornalismo praticado por essa revista (http://luis.nassif.googlepages.com).

Proponho-me a discutir um pouco de onde parte a fala de Durham para, em seguida, problematizar o texto de Mulinari.

Eunice Durham afirma ser contra a expansão da universidade pública no Brasil. Culpa os professores, individualmente, pelo desastre que é a educação escolar no Brasil, o que é coerente com sua ideologia. Para o neoliberalismo, só os indivíduos contam. Não se fala seriamente em políticas públicas, pois se parte do pressuposto de que cada indivíduo tem um poder sobrehumano para decidir seu futuro, se qualificar e sobreviver com salários de 400 a 800 reais por mês, independente das condições materiais em que vive e atua. Durham integrou a equipe do MEC na administração FHC, que se notabilizou por sucatear a universidade pública brasileira por oito anos.
Uma boa síntese sobre o equívoco de Durham já foi feita por Paulo Ghiraldelli em seu blog (http:\\ghiraldelli.wordpress.com), que reproduzo a seguir:

“Eunice Durham fez uma pesquisa. Ela analisou documentos de cursos de pedagogia. Ela concluiu aquilo que o seu próprio grupo ideológico concluiu sem pesquisar. O pessoal do PTE, Pensamento Tecnocrático da Educação, que em geral ganha expressão fácil na revista Veja, acredita que os cursos de pedagogia e de formação de professores são “teóricos”, e o que é preciso é dar aos professores uma formação enxuta que possibilite a eles ensinar o que não conseguem ensinar […] A pesquisa de Eunice está invalidada já desde o início. Ao menos como pesquisa. Todos nós sabemos que ninguém vai fazer qualquer retrato fidedigno do que ocorre no ensino apenas lendo o que é posto no papel para ser cumprido por faculdades. Eunice acredita. […] Eunice acaba concluindo o que a ideologia de seu grupo recomenda. E a ideologia conservadora não quer ver nada que não seja o professor ruim isolado e responsabilizado individualmente pelo seu suposto fracasso.”

O pensamento pedagógico tecnocrático, que teve seu apogeu na ditadura militar (1964-1985), brindando-nos com o desastre da reforma educacional de 1969-1971, continua firme nas concepções fundamentais e nos atos de figuras que ocuparam, nos últimos quinze anos, a secretaria de educação de São Paulo. A atual secretária de educação daquele estado também foi acolhida pela Veja para desqualificar genericamente a formação de professores nos cursos de Pedagogia, cerca de um ano antes de Durham. O governo daquele estado esteve à frente do grupo de governadores que foi ao STF no ano passado contestar a lei do piso nacional para a remuneração dos professores. Consideram excessiva uma remuneração mensal de R$ 1.000,00 por mês para os educadores, em um país onde delegados, procuradores ou assessores legislativos ganham R$ 15.000,00, R$ 20.000,00 ou mais.
Desta forma, é fácil perceber para quais carreiras os estudantes mais qualificados continuarão se dirigindo. E é fácil entender por que as licenciaturas costumam receber muitos estudantes que não escolheram a carreira de professor por se identificar com ela, mas por não conseguir entrar em outros cursos mais concorridos.

Trabalho na Licenciatura em Pedagogia de uma faculdade séria, em Boa Vista. Nossos alunos, muitas vezes, chegam ao ensino superior sem ter tido acesso ao mínimo que o ensino básico deveria oferecer. O ensino superior não pode realizar o milagre de sanar todas essas deficiências em 4 anos e ainda cumprir as suas próprias atribuições.

Examinemos, agora, o artigo de Mulinari. Ela endossa, sem crítica, a afirmação de Durham de que “os cursos de pedagogia procuram ensinar conhecimentos filosóficos, antropológicos, históricos e econômicos à educação, pretensão alheia às reais necessidades da escola”. Devemos concluir então que, para Durham e para Mulinari, os professores devem ser meros “dadores de aula”? Bem, para fazer isso não é necessário um curso superior. Basta saber ler e escrever mediocremente e “aplicar” atividadezinhas mimeografadas ou apostiladas. Para o senso comum, ensinar em uma escola não vai além disso. Não se exige compreender a realidade social em que se vive – ou melhor, acredita-se que o senso comum já fornece todo o conhecimento necessário para essa compreensão.
No entanto, para quem acredita que a educação tem como fim levar o aluno a conquistar sua autonomia moral e intelectual, o desenvolvimento de uma atitude crítica e da capacidade de analisar e organizar sistematicamente as informações devem ser objetivos elementares. E isso só se alcança com o apoio de conhecimentos filosóficos, antropológicos, históricos e econômicos. O próprio desenvolvimento das competências mais básicas relacionadas à leitura e à escrita, essenciais aos futuros educadores, não se dá no vazio, mas no tratamento desses conteúdos vitais sobre o que é o homem, sobre o que é o conhecimento, sobre por que há fome, miséria e ignorância lado a lado com a opulência, a ostentação, a riqueza e o desperdício.
Durham e Mulinari também vêem um problema na suposta predominância de uma “ideologia atrasada”, isto é, de esquerda, nas faculdades de pedagogia. Ghiraldelli já disse que Durham se baseou apenas na leitura dos documentos oficiais das faculdades para fazer essa afirmação. Mas digamos que seja verdadeira essa asserção tão discutível. Qual seria a “solução”? Adotar autores de direita, conservadores?
Durham quer nos fazer crer que ela mesma não é ideológica. Mas a neutralidade é impossível – ela já tomou partido há muito tempo. Suponho que ela e Mulinari se referem a autores como Dermeval Saviani, Vitor Paro, Celso Vasconcellos ou Newton Duarte, que se apóiam em um referencial teórico sério e consistente – o materialismo histórico. Curioso é ver gente dizer assim, liminarmente, que tal referencial está “ultrapassado”, sem se dar ao trabalho de argumentar por que e em que aspectos ele está ultrapassado, nem oferecer uma construção teórica que o tenha superado.
Finalmente, Mulinari se “descola” da entrevista de Durham e passa a discursar contra as filas que os pais enfrentam para conseguir vagas nas escolas para seus filhos, para o sucateamento e o abandono das escolas. Aqui encontramos o nó da questão: na primeira parte de seu artigo, a culpa das falhas da educação escolar é das faculdades de pedagogia e dos próprios professores. Na parte final, que fala do abandono da rede escolar, a culpa não é de ninguém. Por que a autora, aqui, não aponta culpados?
Mulinari ridiculariza a ênfase dos educadores no processo democrático, participativo e dialógico e depois critica o excesso de faltas de determinados professores na rede pública, que não têm essas ausências descontadas do salário. No entanto, não consegue perceber que tanto os vícios existentes nas escolas quanto a falta de manutenção da rede de ensino estão umbilicalmente ligadas à falta de democracia e de participação da comunidade no sistema: se os usuários do sistema realmente pudessem participar, em conselhos de escola deliberativos, da elaboração da proposta pedagógica, da fiscalização do FUNDEB, da merenda e da qualidade dos serviços prestados em geral, se diretores não fossem definidos por apadrinhamento político-eleitoreiro, é razoável supor que tais vícios seriam coibidos e que o estado ou o município seriam obrigados a tratar a educação pública com mais seriedade.

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