Uma descrição do Vale do Rio Branco, feita há mais de 230 anos

10 04 2012

Em 1777, um funcionário da Coroa Portuguesa visitou o Vale do Rio Branco e deixou uma bela descrição. Partilho aqui uma parte desse manuscrito:

“Até trinta léguas em distancia da sua barra é bordado de selvas: porém a maior parte do seu curso é por campos dilatados a perder de vista, cujos baixos inunda com as enchentes. Por estes campos se acham intermediadas, em distancias, moutas ou ilhas de arvoredos, que os fazem mais amenos. Os montes, dispersos por todos os lados, acabam de completar a mais agradavel e elegante perspectiva que se pode offerecer à vista. Elles são cheios de cavernosas concavidades ou grutas, que servem de segura habitação aos indios das nações Uapixana e Macuxy. [...]

“O clima do Rio Branco, ainda que situado na zona torrida, experimenta os mais benignos influxos. É uma eterna primavera. O que se conhece de inverno é o maior excesso das chuvas no mez de Abril até Agosto: então é que intumesce o rio com as aguas, que arrebatadamente descem das montanhas. Nos outros mezes do anno mitiga e refrigera os ardores do sol, não somente uma noite igual ao dia, em que cahe abundante orvalho, mas também os ventos nortes que alli reinam, incomomodos sim, mas saudaveis e uteis afugentadores da praga dos mosquitos de diversas especies, a que as aguas estagnadas dão necessario nascimento”.

(Relação geográfica e histórica do Rio Branco da América Portuguesa, pelo Bacharel Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, in Revista do Instituto Histórico, 13, 211/212).

Aquarela da Expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira, séc. XVIII.





O mundo assombra-se com nossa ousadia!

11 02 2012

Modesta comparação entre as aulas magnas proferidas em diferentes instituições.





Afinal, são todos santos?

27 08 2010

comentário perfeito do Angeli sobre a alienação política...

Somente as candidaturas do PCO e o candidato a Senador pelo PSOL foram impugnadas em Roraima, pelo jeito. Dois partidos que não tem nenhum registro de envolvimento com corrupção, mas que tem compromisso com os movimentos sociais e com o socialismo. Esses não podem concorrer, diz nosso excelso judiciário, sempre alerta, rigoroso e coerente.

Ao mesmo tempo, indivíduos que foram presos (algemados) na operação Gafanhoto, gente acusada de explorar trabalho escravo em fazenda, pessoas que já governaram o estado e foram acusadas de fazer a festa (literalmente) com os recursos públicos estão lépidos e fagueiros. Todos com a ficha limpíssima (ou ficha LAVOU, TÁ NOVO!).

No horário eleitoral gratuito, na televisão, um candidato diz que é hora de RENOVAR, de dizer NÃO à corrupção – com a foto de um candidato alvo de 21 processos ao lado. Outro reclama que a educação e a saúde estão muito ruins – com a foto do atual governador ao seu lado.

TODOS dizem que defendem a SAÚDE, A EDUCAÇÃO E A SEGURANÇA. É o mantra repetido a cada eleição. Já era para termos a melhor saúde, a melhor educação e a melhor segurança do mundo!

Ambos os candidatos que lideram a corrida ao governo se consideram herdeiros de Ottomar, que, como sabemos, era um santo (quase um deus). Ninguém questiona qualquer candidato sobre os inúmeros escândalos de corrupção e incompetência protagonizados em Roraima nos últimos trinta anos. Para toda a imprensa e para todos os candidatos das coligações mais fortes, é normal que os telefones das escolas e do Decon estejam cortados há meses por falta de pagamento. Que os computadores das escolas não estejam ligados por falta de instalação elétrica adequada. Que as viaturas de polícia, em determinados munícipios, não tenham gasolina. Que a polícia técnica e o IML sejam quase inoperantes por absoluta falta de condições de trabalho. Ninguém é responsável.

Agora, é impressionante a perseguição que sofrem nossos pobres e exaustos políticos de Roraima (“pobres” é liberdade poética). Digite os nomes de alguns de nossos ilustres parlamentares (estaduais ou federais) no Google e choverão indicações de sites com acusações sobre nossos inocentes representantes. Pura má-vontade, preconceito contra os valorosos políticos roraimenses.

Em abril, o CQC deu o prêmio ficha suja ao nosso digníssimo ex-deputado Neudo Campos, o mais votado em 2006 e agora postulante a mais um mandato como governador. Só porque ele responde a 21 processos, vê se isso é motivo para chamar alguém de ficha suja! Suja mesmo, só se tivesse, digamos, uns 250 processos, né? Não faz diferença, 21 ou 250, não vão dar em nada mesmo em nosso rigoroso, implacável e veloz poder judiciário.

Em um site, vejo que “Urzeni Rocha [...] responde a cinco inquéritos no STF, por crimes como peculato e formação de quadrilha”, e participa da COMISSÃO DE ÉTICA da Câmara. Clique aqui para ver a lista dos inquéritos.

Em outro site, leio que “Fiscalizações nas propriedades do deputado federal Urzeni Rocha (PSDB-RR) e do prefeito de Toledo (MG), Vicente Pereira De Souza Neto (PSDB), libertaram 47 de trabalho escravo. Quatro vítimas eram jovens com menos de 18 anos”.

No site da eBand, sou informado de que Márcio Junqueira e José Reinaldo Pereira são acusados de compra de votos: “De acordo com a acusação, foram encontrados 2.400 envelopes, com R$ 100 cada, que serviriam para pagar eleitores”, nas eleições de 2006. Ora, senhores, o que isso prova? Encontrar 2400 envelopes contendo, cada um, cem reais, na véspera da eleição? Isso não prova nada! Podia ser uma festa de São Cosme e Damião fora de época, o cara não teve tempo de comprar os docinhos e guloseimas, e resolveu botar dinheiro vivo nos envelopes…

A revista Carta Capital, por sua vez, implicou com nossa primeira-dama, só porque ela contratou o MC Sapão (não conheço, mas deve ser muito bom, pois a primeira-dama sempre mostrou uma cultura refinada e um bom gosto acima de qualquer discussão) para sua festa particular e depois o colocou no jatinho do governo para voltar para o sudeste do Brasil.

Gente, é muita perseguição, né? É o UOL, a BAND, o STF, o Ministério do Trabalho, a REPÓRTER BRASIL, a Polícia Federal, tanta gente acusando nossos deputadozinhos injustamente, atrapalhando o trabalho deles, puxa…

Uma moradora da zona oeste que conversava comigo disse – com toda naturalidade – que na última eleição o voto estava custando 250 reais. É por isso que os políticos começam seu discurso com “Meu caro eleitor…”

Já que todos são santos e ninguém será responsabilizado mesmo, tenho uma hipótese para explicar o fenômeno de venda de votos: são marcianos que compram os votos dos eleitores de Roraima! Isso mesmo! A cada dois anos, os ETs aparecem nas ruas da capital e do interior, na véspera da eleição, e oferecem dinheiro, gasolina, transporte ou outras benesses por votos. Pronto. Só pode ser isso, um plano para os aliens conquistarem a Terra (começando por Roraima). É a explicação mais plausível.





As eleições exigem um posicionamento político de todos nós.

21 07 2010

chapa do PSOL RR 2010Prezados amigos e amigas:

Evidentemente, as mudanças que precisamos realizar em nossa sociedade não serão realizadas no curto prazo. O capitalismo já começou a nos levar à barbárie e à auto-destruição, mas acredito que podemos reverter essa tendência – superando o capitalismo.

No entanto, há decisões de curto prazo, que podem influenciar as ações de médio e longo prazo. Precisamos apoiar movimentos sociais e partidos de esquerda, que trabalham na construção de um projeto de sociedade que rompa com o sistema que, cada vez mais, degrada a humanidade e o planeta Terra. Se a nova sociedade será chamada de socialista ou não, é o que menos importa. Mas, se houver futuro para a humanidade, não haverá capitalismo.

Entendo que, aqui em Roraima, precisamos negar qualquer tipo de apoio ou condescendência com os grupos oligárquicos que mandam e desmandam neste estado há décadas. Proponho o voto nos candidatos do PSOL em 2010, para ajudar a construir, no médio prazo, alternativas fortes, viáveis e coerentes para ganhar a hegemonia na nossa sociedade.





Êta, governo bão, sô!!!

11 07 2010

Enquanto segue a festança junina, repasso algumas notícias sobre nossa terra publicadas pelos sites do país afora:

Ideb: nota escolar cai em 20% das cidades
Apesar de as médias nacionais terem crescido entre 2007 e 2009, estados e municípios não acompanham resultado

Demétrio Weber

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador de qualidade do ensino brasileiro, caiu em mais de mil municípios no ano passado.

Embora todas as médias nacionais tenham subido de 2007 para 2009, ultrapassando as metas bienais estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC), 1.146 cidades registraram queda do Ideb nos anos finais (do 6 ao 9) do ensino fundamental, o equivalente a 21% do total de municípios avaliados nesse nível de ensino [...].

O Distrito Federal e Roraima foram as duas únicas unidades da federação a sofrer queda no Ideb. Isso ocorreu no ensino médio, etapa que vive o pior momento no país. No DF, o Ideb caiu de 4 para 3,8. Em Roraima, a redução foi de 3,5 para 3,4.
(fonte: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/07/05/ideb-nota-escolar-cai-em-20-das-cidades-305572.asp).

Roraima registra 6.225 casos de malária neste primeiro trimestre

Roraima registrou o aumento de mais de 100% de casos de malária em todo o Estado. Conforme os dados do Núcleo de Malária da Secretaria Estadual de Saúde (Sesau), de janeiro a março do ano passado, foram confirmados 2.894 casos, enquanto que neste ano, no mesmo período, passou para 6.225 novos casos. Ao todo, no ano passado foram registrados 15.032 casos. (fonte: http://www.bvnews.com.br/cotidiano6309.html)

Tucano gasta até R$ 76 por voto na campanha mais cara do Brasil
Governador e candidato à reeleição Anchieta Júnior (PSDB) tem a campanha mais cara do País em números proporcionais (fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/tucano+gasta+ate+r+76+por+voto+na+campanha+mais+cara+do+brasil/n1237706665866.html)

R$ 7,9 milhões em dinheiro vivo
Arrozeiro candidato a deputado federal declara ter R$ 7,9 milhões em dinheiro vivo e responder a ‘uns 50 processos’

Evandro Éboli

O plantador de arroz Paulo César Quartiero, líder da resistência à demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, é candidato a deputado federal pelo DEM.

Ele guarda R$ 7,9 milhões em dinheiro vivo em casa, segundo informou ao Tribunal Regional Eleitoral. O montante representa 98% de toda sua fortuna declarada, de R$ 8.010.010.

Quartiero responde, segundo ele mesmo, a “uns 50 processos”. Entre eles, por porte ilegal de explosivo, desacato a autoridades, desmatamento, improbidade administrativa e compra de votos.

O empresário diz que outros empreendimentos que toca estão no nome de familiares.

- Se precisar fugir do país, “tá na mão” – brincou, sobre a grande quantidade de dinheiro. (fonte: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/07/10/r-7-9-milhoes-em-dinheiro-vivo-307157.asp)

Roraima deve ter a campanha mais cara do País
AE – Agência Estado
As estimativas de gastos dos candidatos aos governos dos 26 Estados e do Distrito Federal revelam que Roraima planeja fazer a campanha mais cara do País, gastando até R$ 116,72 por voto captado. (fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,roraima-deve-ter-a-campanha-mais-cara-do-pais,578804,0.htm).

Vamos continuar festejando, gente!!!! Roraima no caminho certo!!! Para o brejo!





Participe de mais uma pesquisa político-humorística…

21 01 2010




Congresso dos estudantes da UFRR? Tem certeza?

12 11 2009

Olha, eu queria saber se é verdade mesmo o que ouvi por aqui. Houve um congresso dos estudantes da UFRR. OK, os cartazes e painéis espalhados pelo campus e pela cidade eram pra lá de esquisitos, com aquelas meninas fantasiadas de patricinhas, empunhando ora um megafone, ora uma bandeira com o símbolo da reciclagem, como se isso fosse a coisa mais “irada”, “radical” e subversiva do momento.

Parecia haver uma confusão de referências: alguém disse que a intenção era fazer uma referência às lutas de 68. Mas aquele visual simbolizaria justamente o tipo de gente, de comportamento que era alvo dos movimentos da contracultura! Quem marchava contra a guerra do Vietnã, quem apoiava os Panteras Negras, quem apoiava a luta pelos direitos civis, quem enfrentava os tanques em Praga, quem marchava no enterro do Edson Luís não se vestia daquele jeito, pelamordedeus!

Nenhum dos meus alunos se reconhecia naquela caricatura de juventude mostrada nos cartazes do tal congresso.

Agora, mais um choque: alguns alunos que participaram do congresso me disseram que o eventou foi aberto com a fala de… Mozarildo Cavalcante e Anchieta Jr.!!!! Não satisfeita com isso, a organização do Congresso teria ainda colocado em votação (vitoriosamente) a redução da representação estudantil para 15 ou 17% na eleição para reitor.

Amigos, colegas, por favor, me digam: é mentira, né? Isso não aconteceu, né? O DCE não transformou a UFRR na única universidade do mundo em que os estudantes pedem para reduzir sua participação, seus direitos, seu poder de voto? O único lugar do mundo em que um Diretório de Estudantes só chama gente da direita, classe dominante, dos responsáveis por todo o descalabro, por toda a injustiça, para dizer aos jovens como devem agir?

Isso só pode ser um pesadelo!





Mais um fake sobre a “Internacionalização da Amazônia”

22 06 2009


A internet, assim como o papel, aceita qualquer coisa. Há mensagens que, a exemplo dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, do Plano Cohen ou das Cartas Falsas, servem como espantalho para levar a opinião pública a abraçar determinadas causas conservadoras, que não ousam dizer seu nome. Sobre Roraima, temos as famosas “Diretrizes #4″ de uma sinistra organização secreta (uma espécie de arqui-ONG), que em 1981 teria lançado um plano para internacionalizar a Amazônia, blá-blá-blá. Há o famigerado livro Máfia Verde, bancado por uma organização de direita dos EUA e lido pelos falsos nacionalistas daqui. E temos uma mensagem absurda, que circula há anos, atribuída a um(a) professor(a) do sul do país que teria ficado espantado com o que viu aqui.

Essa mensagem seria um “relato de uma pessoa conhecida”, enviado pelo amigo do amigo do amigo do conhecido do colega do vizinho. Possivelmente, apócrifa. Graças ao grande desconhecimento dos brasileiros sobre a história e a geografia de seu próprio país, o campo está aberto aos discursos mais delirantes, dentro e fora de Roraima. Como cidadão brasileiro, nascido e criado em Boa Vista, trabalhando e residindo na capital de Roraima, mais uma vez respondo a essa coleção de equívocos.

1) A relação entre migrantes e nativos é realmente a mais alta do Brasil, mas não é de 10 para 1. Na verdade, são aproximadamente 50% denativos e 50% de migrantes, segundo o IBGE. Em princípio, não vejo
problema nisso – São Paulo provavelmente já teve uma proporção semelhante entre nativos e migrantes. O estado inteiro de Roraima, há poucas décadas, não tinha mais que 50 mil habitantes. Hoje não chega a 500 mil.

2) 70% do território do estado como reserva indígena: falso. Somando-se as APAS (Áreas de Preservação Ambiental) nacionais e municipais, T.I.s (Terras Indígenas) e terras do Exército, chegamos a no máximo 53% do território. Qual seria o critério para se dizer que isso é “muito”? 200.000 hectares para um único latifundiário branco não é excessivo? Por que a monocultura da soja ou do arroz, lançando toneladas de agrotóxicos nos nossos rios e em nosso solo, destruindo as matas ciliares, é “bom” para a comunidade, para a espécie humana, e a preservação de todas as nascentes dos rios que banham o estado, da biodiversidade natural e da diversidade cultural seriam “ruins” para a oletividade, para a humanidade? Até quando vamos inverter a realidade e continuar dizendo que o interesse de meia dúzia de latifundiários deve se sobrepor ao interesse de milhões de pessoas e das futuras gerações?

A T.I. Raposa Serra Do Sol, por exemplo, tem uma população indígena de quase 20 mil pessoas. As pessoas não param para pensar que, se isso fosse um município, seria o terceiro mais populoso do estado de Roraima. É uma área com dezenas de postos de saúde, escolas, criação de gado (o maior rebanho do estado), produção de frutas, de mandioca… Há um negócio muito engraçado, aqui: quando vou a Manaus, escuto toda a classe política dizendo que o Amazonas é o estado do futuro – todos devem investir no estado, pois mais da metade do Amazonas está preservado em diversas APAs. Na Costa Rica, um dos maiores destinos de ecoturismo e turismo de aventura, também há um consenso sobre isso.

Quando volto a Roraima, escuto a atrasadíssima classe política local(super comprometida com seguidos escândalos de corrupção do tipo Gafanhotos) dizer que Roraima não em mais futuro, pois mais da metadedo estado está preservada. Quem enlouqueceu? Os políticos do Amazonas ou os de Roraima?

E mais: a área que fica de fora das APAs e T.I.s é equivalente à area total do estado de Pernambuco, que tem cerca de 10 milhões de habitantes. PE é um estado inviável? Se essa área é suficiente para 10 milhões de pessoas lá, não é suficiente para menos de meio milhão aqui???

Reinaldo Imbrozio, cientista do INPA, onde estão muitos de nossos melhores quadros de pesquisadores sobre a Amazônia, relaciona a resistência e a campanha virulenta contra as áreas de conservação e a visão de mundo e os interesses das oligarquias locais e nacionais, bem mais atrasadas do que qualquer homem de neanderthal. Parte da produção científica desse pesquisador e colaboradores encontra-se em http://agroeco.inpa.gov.br/reinaldo/Usuarios_Visitantes_RIB.htm

3) Na BR 174, realmente, há restrições ao tráfego de veículos particulares à noite. Mas por que a suposta autora da mensagem não conta a história da abertura dessa estrada, nos anos 70? Durante a ditadura, sem possibilidade de ação da imprensa, do Ministério Público ou de quem quer que seja, o exército cometeu ações genocidas. Não houve negociação. Pessoas da etnia waimiri atroari foram mortas em um número que jamais será conhecido. Metralhadora e arame eletrificado contra arco e flecha. Não é má fé ocultar essa história, que explica o acordo existente hoje para a passagem pela terra indígena? Eliminar o controle não daria nenhuma chance para a invasão, ocupação, desmatamento da área, criando um fato consumado e expulsando de vez a população nativa?

De qualquer forma, outras rodovias passam por terras indígenas sem qualquer restrição ao tráfego, como a RR-203, que liga a capital ao Amajari e à Serra do Tepequém.

4) “Você não passa se for brasileiro, o acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses [...] Americanos entram na hora que quiserem, se você não tem uma autorização da FUNAI mas tem dos americanos então você pode entrar”: aí é mentira mesmo. Baseado em que o (a) autor(a) afirma isso?

5) Os mesmos políticos que alardeiam um suposto risco de “perda de soberania brasileira” sobre a Amazônia aprovaram alegremente a entrega, por FHC, do SIVAM à empresa estadunidense Raytheon, em prejuízo de um consórcio de empresas e universidades brasileiras. São os mesmos que aprovaram no Congresso a “flexibilização” da proibição de aquisição de terras por estrangeiros em faixa de fronteira. São os mesmos que se escandalizam com a política nacionalista e anti-ianque de Chávez, mas apóiam e elogiam as neocolônias dos EUA, a Colômbia e o México. São os mesmos que peregrinam por países estrangeiros, implorando para empresas alienígenas adquirirem terras a preço de banana ou gratuitamente mesmo, com renúncia fiscal e tudo o mais, para virem poluir e desmatar aqui. Uma empresa de capital suíço, por exemplo, transformou milhares de hectares de cerrado roraimense em uma monocultura de acácia negra australiana, para exportação de celulose; os mesmos políticos que são contra a terra indígena bajulam esse capital estrangeiro. São os mesmos que aprovaram todas as leis do pacote neoliberal nos anos 90, entregando de bandeja nossas riquezas aos estrangeiros. Como a privataria ou como a lei de patentes de 1996, que veio em inglês diretamente dos EUA, foi traduzida e aprovada a toque de caixa por um Congresso subserviente. O povo não ganhou nada, mas muitos dos políticos que aprovaram as privatizações na década de 1990 foram regiamente recompensados pelas empresas estrangeiras. O ex-governador do RS, Antônio Brito, por exemplo, ganhou um cargo no Conselho da empresa que ele mesmo entregou ao capital estrangeiro.

São os políticos da direita entreguista, velhos conhecidos. Desde os anos 50, desde o golpe de 64. São sempre os mesmos, com pouca variação ou aggiornamento do discurso. Os mais velhos foram morrendo, mas novas gerações de entreguistas floresceram. Não deveríamos nos deixar enganar por uma retórica tão pobre. O problema dessa gente nunca foi a soberania nacional, e sim o enriquecimento pessoal por meio da exploração predatória do Brasil.

Terras indígenas e APAs ficam excluídas do mercado capitalista. Não podem ser griladas. Esse é o problema.





NÃO EXISTE CORRUPÇÃO EM RORAIMA!

14 01 2009

Outro dia, estava conversando com um amigo que anda meio atordoado com o que vê por aqui. Ele não anda nada bem. Tanto que veio com uma nova tese: a de que não existem corruptos em Roraima. O diálogo foi mais ou menos assim:
- E aí, André, tudo bem?
- Mais ou menos. E você? Tu andavas tão soturno, te falei para parar de ler a página de política dos jornais…
- Nada disso. Estou muito bem. Satisfeitíssimo. Agora, tudo se encaixa.
- Como assim?
- André, é muito simples. A gente ficava se lamentando, esbravejando, dizendo “Até quando, isso!”. Mas estávamos iludidos por uma perspectiva pessimista das coisas.
Nesse momento, pensei: “Essa história mal começou, mas me parece coisa do Dr. Pangloss, o incorrigível otimista”. Mas pedi para ele continuar, só para ver aonde tudo isso ia dar. Ele prosseguiu:
- Meu caro, veja só: nós sempre pensamos que tudo por aqui estava mergulhado em um mar de corrupção, mas nos sentíamos impotentes para fazer alguma coisa a respeito, certo?
- Certo.
- A cada instante, essa forma de ver as coisas parecia ser corroborada por uma unanimidade, pois todas as pessoas que conhecemos falam sobre uma corrupção fora de controle, não é mesmo?
- É verdade!
- Na educação, na agricultura, nas obras públicas… Tínhamos a convicção de que tudo é posto a perder pelo roubo escancarado por parte de grupos oligárquicos e arrivistas que superam-se uns aos outros na desfaçatez com que esfregam em nossos narizes as mansões e os carros luxuosos que adquirem com o fruto de suas malfeitorias, não era isso?
- Sim, só não entendo por que colocas isso no passado! Continuo acreditando nisso!
- Mas aí é que você se engana, meu amigo! Agora compreendo tudo e graças a essa compreensão posso dormir mais tranquilo!
- Esclarece-me, então, para que eu possa também dormir melhor esta noite!
- Veja: há aqui uma Controladoria do Estado, um Tribunal de Contas do Estado com um número respeitável de servidores dedicados a fiscalizar o bom uso do dinheiro público, 365 dias por ano, sete dias por semana; uma Vara de Fazenda Pública, um Ministério Público Estadual e outro Federal; uma Justiça Eleitoral; um escritório da Controladoria Geral da União, temos a polícia civil, a polícia militar, a polícia federal, temos jornais prontos a fiscalizar e investigar.
- Certo, temos tudo isso.
- Além disso, há órgãos federais destinados a fiscalizar movimentações financeiras suspeitas, um Tribunal de Contas da União, um Congresso eleito e uma miríade de leis extremamente rigorosas para o combate à corrupção.
- Bem, é verdade! Mas…
- No entanto, com toda essa imensa e complexa estrutura anticrime, não existe uma única pessoa presa por corrupção no estado.
- Justamente!
- E aquelas pessoas que, injustamente, julgávamos culpadas de determinados crimes aparecem nas colunas sociais dos jornais que fiscalizam os poderosos, são condecorados por nossos representantes eleitos e continuamente são reeleitos, ano após ano, década após década. A única conclusão possível, meu caro, é a de que não existe, nem nunca existiu corrupção nesta terra! Não há nem nunca houve corruptos por aqui!
- Mas…
- NUNCA! Está me ouvindo?
- Mas há outra hipótese possível – já que estamos falando sobre hipóteses possíveis.
- Qual?!
- A de que toda a estrutura esteja montada para que nenhum crime desse tipo seja elucidado e punido… E para que os que querem justiça sejam impedidos de agir, e para que os que podem agir não o queiram.
Meu amigo ficou calado, olhou para um lado, meditou por alguns segundos e voltou àquele estado soturno que era sua marca já há algum tempo.








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