São João da Baliza: o que fazer com nossos municípios?

18 01 2012

Estou a ministrar uma disciplina de História no “campus” da UERR em São João da Baliza (RR). Até o momento o registro acadêmico não soube informar quantos alunos estão efetivamente matriculados na disciplina. De qualquer forma, só um aluno apareceu mesmo até hoje (terceiro dia da disciplina).

Como de praxe na maioria dos municípios do interior, a cidade não parece oferecer muitas perspectivas a seus habitantes. Ruas (muito) esburacadas, praças e obras governamentais abandonadas, grandes áreas desmatadas e depois deixadas ao domínio da capoeira e das ervas daninhas. O próprio site da prefeitura mostra como foto de divulgação da cidade uma rua em situação lastimável (http://www.pmsaojoaodabaliza.com.br/novo_site/popup.php?ID=9). O prédio da polícia militar está em péssimas condições. Nas escolas públicas, a mesma situação de muitas escolas da capital: paredes sujas, excrementos de pombo acumulados nos cantos. Falta energia elétrica com alguma frequência. A cidade é (des)servida pelos ônibus sucateados da Eucatur e por aquelas vans precárias e xexelentas. Já viajei em pé de São Luís a Boa Vista (mais de 8 horas de viagem), pois a Eucatur não vê nenhum problema em vender mais passagens que lugares. É impossível crer na existência de qualquer tipo de fiscalização dessa porca empresa de ônibus, que mostra total desprezo pelos passageiros. Fala-se em vastas áreas de lotes destinados ao assentamento comprados irregularmente por determinados deputados, que formaram dessa maneira grandes latifúndios.

Centro de São João da Baliza (RR)

O comércio da cidade parece ser bem movimentado e algumas casas estão bem cuidadas. O que mais chamou a atenção ao chegar na casa de apoio (alojamento dos professores) foi o gramado, a ausência de muros e uma bela samaúma no pátio. Infelizmente, um colega professor já me alertou que essa calma é enganadora, pois sua máquina de lavar já foi roubada de sua casa.

O prédio da UERR é vistoso, situado logo na entrada da cidade. Conta com umas dez salas de aula, espaço para biblioteca e para um auditório, bem como para umas 2 ou 3 salas administrativas. Tanto a área livre para uma possível expansão quanto o auditório foram subdimensionados, como de hábito. O prédio já foi planejado sem salas para os professores. Um loteamento está sendo aberto logo nos fundos do prédio e um estranho posto de gasolina quase fecha a frente do “campus”. As instalações são improvisadas. Ao que parece, um trator do loteamento vizinho destruiu o encanamento do prédio, deixando a universidade sem água. E ficou por isso mesmo. Os banheiros tem luzes de acendimento automático, acionadas por sensor de movimento – mas não há verba para papel-toalha. Cheguei em um domingo chuvoso, o que permitiu ver com meus próprios olhos como a tempestade entra livremente pela cobertura do prédio, formando uma cachoeira nas escadas e alagando parcialmente os corredores. A compra dos móveis está atrasada há mais de um ano, o que é alegado como justificativa para o fato deste prédio – e mais uns 4 ou 5 idênticos em outras cidades do interior – nunca terem sido inaugurados, apesar de estarem praticamente prontos.

Fui informado que os prédios dos campi de São João e Rorainópolis foram ocupados pelos alunos, cansados de ver o patrimônio público ser dilapidado pela ação do tempo, permanecendo em dependências improvisadas e dilapidadas de uma escola estadual. Com o fato consumado pelos alunos, organizados em um centro acadêmico, o diretor – homem honesto, competente e zeloso – tenta em vão sensibilizar as instâncias superiores a liberar recursos para reparos emergenciais. Ele e os funcionários esforçam-se ao máximo para garantir a limpeza e a organização do ambiente. Com todas as dificuldades, mostram empenho, lealdade e profissionalismo.

Com o mais recente concurso de professores da UERR, realizado em 2011, um grande número de mestres e doutores de São Paulo, Minas Gerais e outros estados vieram morar em Roraima. Vários fixaram residência no interior, cheios de energia, conhecimento e vontade de contribuir no desenvolvimento da universidade e do povo roraimense. Mas até que ponto uma universidade sozinha pode atuar como indutora de desenvolvimento? Como enfrentar o câncer da incompetência administrativa, da corrupção e do desperdício de dinheiro público que devasta Roraima? Até quando esses valorosos professores ficarão na UERR se não houver condições mínimas de trabalho?





18 01 2012





Poderíamos aprender algo com os amazonenses…

18 01 2012

É chocante a diferença entre Roraima e Amazonas quanto ao tratamento dispensado à cultura, ao patrimônio histórico-cultural e ao lazer. Enquanto nós não temos um único museu aberto em todo o estado, nossa Casa de Cultura está caindo aos pedaços, a biblioteca pública só encolhe e os espaços públicos de lazer encontram-se em estado desolador, Manaus multiplica as bibliotecas públicas, parques, centros culturais e museus. Com todas as falhas e vícios típicos da nossa pequena política, os gestores públicos – pelo menos na capital amazonense – tem mantido esses espaços em bom estado e ampliado a oferta. Turistas e população local podem visitar o Bosque da Ciência, do Inpa; o Museu do Seringal, os 5 museus do Palacete Provincial, o Centro Cultural dos Povos da Amazônia e muitos outros locais mantidos pela Secretaria de Cultura. Não vou nem falar do Teatro Amazonas e seus corpos artísticos, do festival de ópera etc. Nem vou mencionar o Zôo do CIGS. Mas se ficarmos apenas nos centros culturais, bibliotecas públicas e museus mantidos pela prefeitura e pelo estado, a comparação entre RR e AM é um vexame para nós. E o Amazonas nem é dos estados mais ricos. Há alguma coisa de muito errada na forma como as oligarquias roraimenses “administram” o estado e os municípios de RR.

Orquestra Sinfônica do Amazonas

Um amigo que esteve no Acre trouxe muitas fotografias e também pôde constatar nosso atraso, em quase qualquer aspecto, em relação a um estado igualmente pobre e periférico. Em Rio Branco, o povo tem um orgulho de ser acreano. Parques e centros culturais e de lazer bonitos e bem cuidados chamam a atenção dos visitantes.

Coreto Na Praça da Polícia e Palacete Provincial

No Amazonas, Parques Nacionais como as Anavilhanas e áreas de preservação como a Reserva Adolfo Ducke são motivo de orgulho para a população e promovidas como atrações turísticas. Em Roraima, ao contrário, a “classe política” anda sempre a ladrar contra essas áreas de preservação e defende o desmatamento indiscriminado para a monocultura.

E ainda tem gente que não entende por que os manauaras passam direto por Boa Vista em seu caminho para Margarita…

Sagüi e arara no Bios

Bosque da Ciência (Inpa - Manaus)





Maquete do Forte São Joaquim (séc. XVIII)

23 12 2011

Outro dia fui com o Lucas Avelar, professor da UERR, conhecer a maquete que foi instalada no quartel do 6. BEC, em Boa Vista (RR). Esse forte fazia parte do colar de fortificações que os portugueses erigiram em torno das fronteiras definidas nos tratados de limites do século XVIII. Ao contrário do forte Príncipe da Beira (RO) e São José de Macapá (AP), entretanto, o forte daqui era mais modesto e não foi conservado. A maquete foi feita com pedras, argila, madeira e palha. O resultado ficou mesmo atraente.





Alienação em doses maciças

5 12 2011

Remédios, auto-ajuda, telenovela: tudo o que você precisa para viver!

As imagens abaixo reproduzem as capas de 4 revistas semanais de informação do Brasil, uma do Reino Unido e uma dos EUA, todas publicadas no final de novembro de 2011. Enquanto importantes revistas estrangeiras e a nacional Carta Capital tratam de um tema relevante – a crise na Zona do Euro e a queda do corrupto primeiro-ministro italiano -, Veja, Época e Istoé preferem ficar no rame-rame eterno das capas sobre “novas técnicas de rejuvenescimento”, telenovelas e entretenimento. Jornalistas que trabalham nesse tipo de empresa consideram-se bem “moderninhos”, mas na verdade suas capas parecem repetir-se indefinidamente no tempo. Essas capas de Veja, Época e Istoé poderiam muito bem ser de 1990, 1995, 2001, 2003… Presos a um eterno presente, sem compreender as transformações de seu país e de seu mundo, os leitores dessas revistas permanecem na ilusão de estar bem informados. Publicitários e anunciantes (que enchem as páginas dessas revistas com doses extras de alienação) agradecem.





A trepidante política cultural de nosso estado

31 10 2011

Sábado passado resolvi dar uma de turista. Passei pelas principais atrações culturais e esportivas da cidade. Não cheguei muito perto do Canarinho – confesso que não sou corajoso a ponto de entrar em edifícios condenados.

Já no desconjuntado Teatro Carlos Gomes, que já teve dias melhores, tirei algumas fotos. Vê-se que a programação do teatro está “bombando”.

Já cheio de orgulho e gratidão pelo excelente trabalho de nossas autoridades estaduais e municipais, dirigi-me ao Palácio da Cultura Nenê Macagge, mas estava fechado. Lembrei-me de que não se encontra para aquisição um único livro de Nenê Macagge, nossa maior escritora. Simplesmente, seus livros não são reeditados. Mas para quê, né? Basta ver as capas dos livros pela vitrine que montaram no Palácio da Cultura.

Dizia a Folha de Boa Vista em 25 de fevereiro de 2011: “Durante o ensaio para a colação de formatura de dez turmas da Universidade Federal de Roraima (UFRR), que aconteceria na noite de ontem, uma parte do forro do auditório desabou.” (para ver a matéria e a foto do teto caído, vá em http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=104110&sms_ss=facebook&at_xt=4d67b1660fdf698e%2C0).

Isso mostra o enorme valor que nossos governantes conferem à cultura em nosso estado! Cada vez mais feliz com nossa classe política, caminhei até a Casa de Cultura Madre Leotávia:

Antiga residência do governador do território, Casa de Cultura está abandonada

Não cheguei muito perto, claro, por medo de cair um pedaço do reboco na minha cabeça. Mas essa Casa de Cultura, abandonada há tempos, é o melhor retrato da proposta cultural de nossa classe política. É ou não é?

Em abril de 2010, “o Ministério Público Estadual (MPE) protocolou ação civil pública contra o Estado de Roraima para obrigá-lo a reformar a Casa de Cultura Madre Leotávia Zoller, por descumprimento da legislação estadual no que tange à conservação de patrimônio cultural devidamente tombado como “patrimônio cultural dos roraimenses”.” A notícia está na Folha: http://www.folhabv.com.br/Noticia_Impressa.php?id=100271

Decidi caminhar um pouco no Parque Anauá. Lá encontrei a Escola de Música, super bem conservada, vejam só:

Confiante na competência de nossos gestores culturais, passei pelo ginásio Totozão, interditado há mais de um ano. Como fiquei satisfeito em ver o cuidado que nossas autoridades tem com o dinheiro público. Reportagem da Folha também elogia o bom trabalho dos gestores: http://www.folhabv.com.br/noticia.php?id=94953

Vejam como está bem cuidada a entrada do Ginásio e seu jardim:

Finalizei meu passeio no Museu Integrado de Roraima. O ÚNICO museu do estado está fechado por tempo indeterminado. Um simpático recado na entrada presta contas ao distinto público:

Cartaz na entrada do único museu de RR

Não entendo as críticas que fazem a nossos chefes do executivo, municipal e estadual. Afinal, o trabalho deles é tão bom que o povo os reelegeu! Infelizmente, não podemos reelegê-los de novo.. Que pena. Mas certamente nosso prefeito e nosso governador deixaram marcas profundas em nossa terra. Como Átila, o huno, e o furacão Katrina, suas passagens serão lembradas pela posteridade.

De minha parte fiquei tão emocionado com o trabalho de alta qualidade de nossos gestores que comecei a chorar. De raiva.





Grupo de Trabalho e Discussão em Ensino de História: conclusões

28 10 2011

Durante a VII Semana de História da UFRR, tivemos um produtivo debate sobre o ensino de História hoje em Roraima. Aqui segue o texto produzido coletivamente pelo GTD (Grupo de Trabalho e Discussão) a respeito desse tema:

RELATÓRIO FINAL GTD ENSINO DE HISTÓRIA E EDUCAÇÃO

Ao considerarmos as discussões propostas no grupo, identificamos a falta de parâmetros comuns e a consequente necessidade de reflexão coletiva sobre o ensino de História, em pontos que consideramos fundamentais para uma educação significativa e compromissada com a formação de cidadãos críticos e que compreendam o mundo em que vivem.

Um dos primeiros pontos discutidos trata da ideia equivocada de uma lista de conteúdos padronizada para todas as escolas, na pretensão de se evitar supostas “lacunas” nos conhecimentos históricos dos alunos (em uma evidente confusão entre conhecimento histórico e conteúdos). De forma unânime, considerou-se tal proposta inviável e indesejável, pois uma padronização não leva em consideração a realidade dos alunos concretos, desconsidera a necessidade e o direito à autonomia dos professores em planejar e selecionar conteúdos. Repudiamos toda tentativa de obstar essa autonomia, seja na forma de sistemas apostilados, imposição de listas de conteúdos ou outra medida autoritária. Somente aos Parâmetros Curriculares Nacionais e ao Projeto Pedagógico da escola, construído coletivamente, é que o planejamento do professor deve se subordinar.

Quando é desrespeitado o direito do professor de elaborar seu planejamento e selecionar conteúdos, de acordo com as necessidades dos alunos concretos, cabe ao professor reivindicar esse direito e exercê-lo no relacionamento com as coordenações pedagógicas, pais e alunos, respaldado pelo conhecimento específico da área, controle e domínio dos mecanismos didático-pedagógicos e adequação do plano de trabalho aos objetivos de ensino.

Juntamente com essa autonomia é imprescindível que o professor reconheça e assuma o seu papel de mediador e organizador do processo de construção do conhecimento dos alunos, na pretensão de que o aluno compreenda que é sujeito da História e do conhecimento histórico.

Com isso, assumimos que podemos tornar o ensino de História significativo para os alunos, a partir do momento em que eles se compreendem como sujeitos no processo histórico. O ensino de história pode garantir isso se o professor assumir o papel de mediador utilizando metodologias significativas para que o aluno compreenda sua inserção nesse processo.
No momento em que o professor adota essa atitude, acreditamos que uma avaliação significativa e verdadeira deve ser processual e considerar os objetivos propostos no seu planejamento.
Uma reflexão quanto aos problemas que infelizmente persistem no ensino de História em Roraima considerou questões voltadas ao tempo disponível para as aulas de História nas escolas, a falta de recursos e a necessidade de formação continuada.

O tempo disponível para o ensino de história (duas aulas semanais) é insuficiente. Uma vez que a organização do currículo privilegia algumas disciplinas em detrimento de outras, o professor de história tem de assumir mais turmas que um professor de matemática, por exemplo, e assim, disporá de menos tempo para os trabalhos de correção, leitura e planejamento necessários ao ensino de qualidade.

Entre os problemas apontados foi freqüente a citação da falta de recursos tanto nas escolas de rede pública municipal, estadual, como nas universidades que possuem o curso de História. Especificamente identificamos como necessidades mais urgentes em termos de recursos:

A) Acesso à internet como recurso para planejamento e execução do trabalho docente;
B) Projetor de imagens;
C) Mapas;
D) Acervo bibliográfico;

Na questão da formação verificamos que os professores necessitam de formação continuada para refletir sobre sua prática e adquirir conhecimentos técnicos sobre novas metodologias, emprego de determinados recursos tecnológicos para o ensino, etc. Verificamos isso com base tanto nas discussões sobre necessidades e dificuldades apresentadas pelos professores quanto pela leitura das observações e entrevistas que foram realizadas em salas de aula das escolas de rede pública e particular da cidade de Boa Vista no ano de 2010 por acadêmicos do curso de História da Universidade Federal de Roraima.

Sobre essas dificuldades, identificamos uma grande deficiência dos professores no que diz respeito à auto-avaliação: como não há um controle técnico-externo e como a atividade docente se dá de forma bastante solitária, os profissionais apresentaram muita incoerência em seus depoimentos. Por exemplo, um professor afirmava que os alunos sequer abriam o livro, porém elogiou o trabalho apresentado por eles.

Vale lembrar também há muitos profissionais formados em outras áreas lecionam história na rede pública estadual, o que certamente não contribui para a qualidade no ensino de História.

Ainda levando em conta essas observações e entrevistas, consideramos a ideia de que a melhoria da formação inicial é fundamental para o entendimento do docente quanto à finalidade do ensino de História e muitos professores não conseguiram, nas entrevistas, definir essa finalidade. Vimos que há uma dicotomia na relação entre a grade curricular de licenciatura em História e o trabalho exercido pelo professor no ensino básico. Nesse ponto, propomos que haja uma maior consideração nas disciplinas de Práticas e Metodologias, onde possamos trabalhar tanto a teoria e a prática educacional de forma significativa.

Outro aspecto importante é a relação da universidade com a sociedade, ou seja, a socialização do conhecimento produzido na comunidade acadêmica para a comunidade civil. É necessário que este conhecimento chegue à comunidade em geral.
As reflexões feitas pelo grupo propõem ainda que haja, de forma efetiva, o fortalecimento e união da classe em sindicatos e associações visando à luta contra as arbitrariedades impostas aos docentes tanto pelo governo quanto por algumas gestões escolares.

Reivindicamos melhorias na estrutura física das escolas, disponibilização de recursos metodológicos e a inclusão curricular da História Regional nas escolas, bem como a criação de bibliografias didáticas que tratem dessa temática.





Programação da Feira do Livro!

28 10 2011





Teatro neste domingo, rock no próximo

23 07 2011

Hoje, 19h no Palácio da Cultura, última sessão da peça Oito Olhos, da Cia. do Pé Torto. Ingresso a 4 reais.

Sexta 5 de agosto e sábado 6, a partir de 21h30 no SESC Mecejana, com ingressos a 10 e 5 reais, teremos o Sesc Fest Rock, com bandas locais e de outros estados, como a Cachorro Grande. Imperdível.

Programação (ver informações completas em http://www.sescrr.com.br):

05 de agosto – sexta-feira
21h20 – HAADJ
22h – Ostin
22h40 – Rolling Bones
23h20 – ALT F4
00h – Nevilton
00h40 – A Coisa
01h20 – Disritmiä
06 de agosto – sábado
21h20 – Jam Rock
22h – Kadima
22h40 – Insert Rock
23h20 – Los Porongas
00h – Kandelabrus
00h40 – Iekuana
01h20 – Cachorro Grande





A educação alguma vez foi prioridade nacional?

24 06 2011

Para apoiar a manifestação:

Petição Manifesto dos Educadores e Defensores da Causa da Educação Pública em Solidariedade a Luta dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N11624

MANIFESTO DOS EDUCADORES E DEFENSORES DA CAUSA DA EDUCAÇÃO PÚBLICA EM SOLIDARIEDADE A LUTA DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO DO RIO DE JANEIRO

Após infrutíferas tentativas de negociação, que se arrastam por anos, os profissionais da educação do Estado do Rio de Janeiro, em concorrida Assembléia, realizada no dia 7 de junho de 2011, decidiram deflagrar greve. Atualmente, um professor graduado recebe R$ 750,00 brutos e um funcionário tem piso de 433,00. Somente em 2011, 2,4 mil professores pediram exoneração por completa falta de perspectiva de valorização profissional. A questão afeta a formação de novos professores nas universidades, pois, concretamente, muitos avaliam que a opção pela educação pública implica privações econômicas insuportáveis. As principais reivindicações da greve objetivam criar um patamar mínimo para que a escola pública estadual possa ser reconstruída: reajuste de 26%, incorporação da gratificação do “Nova Escola”, liberação de 1/3 da jornada de trabalho para preparação de aulas, atendimento a estudantes, participação em reuniões etc., eleições diretas nas escolas e melhoria da infraestrutura geral da rede.

Compreendemos que a greve não é episódica e conjuntural. Ao contrário, está inscrita em um escopo muito mais amplo: objetiva sensibilizar a sociedade brasileira para uma das mais cruciais questões políticas não resolvidas da formação social brasileira: o reduzido montante de recursos estatais para a educação pública acarretando um quadro de sucateamento da rede pública e a paulatina transferência de atribuições do Estado para o mercado, por meio de parcerias público-privadas.

Interesses particularistas de sindicatos patronais, de corporações da mídia, do agronegócio e, sobretudo, do setor financeiro arvoram-se o direito de educar a juventude brasileira. Para montar máquinas partidárias, diversos governos abrem as escolas à uma miríade de seitas religiosas retrocedendo no valor da escola laica.

Estamos cientes de que não é um exagero afirmar que o futuro da escola pública está em questão. A luta dos trabalhadores da educação do Rio de Janeiro é generosa, resgata valores fundacionais para uma sociedade democrática e, por isso, nos solidarizamos, fortemente, com a luta em curso. Os recursos existem, desde que a educação seja uma prioridade. Por isso, instamos o governador Sérgio Cabral a negociar de modo verdadeiro com o SEPE, objetivando resolver a referida agenda mínima e a restabelecer o diálogo com os educadores comprometidos com a educação pública, não mercantil, capaz de contribuir para a formação integral das crianças e dos jovens do Estado do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, 20 de junho de 2011

Primeiros signatários:

NOME /INSTITUIÇÃO

Roberto Leher – UFRJ
Carlos Nelson Coutinho – UFRJ
Gaudêncio Frigotto – UERJ
Virginia Fontes –UFF/ Fiocruz
Anita Leocádia Prestes -UFRJ
Marcelo Mattos Badaró – UFF
Ceci Juruá – UFRJ
Anita Handfas –UFRJ
Jailson dos Santos – UFRJ
Lorene Figueiredo –UFF
Ângela Siqueira –UFF
Lia Tiriba, UFF/ UNIRIO
Angela Rabello Maciel de Barros Tamberlini – UFF
José Luiz Antunes –UFF
Cecília Goulart- UFF
Iolanda de Oliveira – UFF
Cristina Miranda -UFRJ
Sara Granemann – UFRJ
Janete Luzia Leite – UFRJ
Fernando Celso Villar Marinho – UFRJ
Clara de Goes – UFRJ
José Miguel Bendrao Saldanha –UFRJ
Lenise Lima –UFRJ
Cleusa Santos –UFRJ
Vera Maria Martins Salim – UFRJ
Leandro Nogueira S. Filho – UFRJ
Letícia Legay – UFRJ
Luis Eduardo Acosta – UFRJ
Regina H Simões Barbosa – UFRJ
Francisco José da Silveira Lobo Neto – Fiocruz
Salatiel Menezes – UFRJ
Ana Maria Lana Ramos – UFF
Maria Inês Souza Bravo -UERJ
José Henrique Sanglard – EP/UFRJ





Mais um presente dos EUA para os povos latinoamericanos

10 06 2011

Governo dos EUA admitiu oficialmente os “experimentos” que transformaram 1500 latino-americanos em ratos descartáveis de laboratório nos anos 40.

Clique AQUI para ver a notícia original.

Clique AQUI para ver a tradução parcial para o português.

‎”Cientistas” e oficiais do nosso grande amigo do norte, os EUA, infectaram à força 1500 órfãos, soldados, prisioneiros, prostitutas e pacientes de hospitais psiquiátricos com sífilis, gonorréia e cancro mole para “pesquisar” os efeitos da penicilina!

Não se sabe quantos descendentes dessas cobaias humanas, na Guatemala, contraíram sífilis congênita e a propagaram para seus filhos e netos, até hoje… Magnífico presente para um país miserável, sem um sistema de saúde minimamente constituído.

E não foi um jornaleco comunista que divulgou isso não, foi o importante jornal inglês The Guardian, em uma matéria publicada anteontem.

Note-se que isso aconteceu em um dos países mais submissos aos EUA em todo o hemisfério. Esse foi o pagamento que seu povo recebeu.

Nossa valorosa mídia verde-amarela, claro, sempre alerta e pronta a nos munir das informações mais importantes, não divulgou nada…





Teatro: Navalha na Carne, de Plínio Marcos.

6 06 2011

O ótimo grupo Arteatro apresenta Navalha na Carne, de Plínio Marcos, no Teatro do Sesc Mecejana, dia 9 de junho às 20 horas. Imperdível.

O texto, do autor brasileiro Plínio Marcos, é voltado para o público adulto e aborda o tema prostituição. A peça conduz a uma profunda reflexão acerca do homem e seus conflitos internos, exaltados pela mistura de sentimentos como orgulho, egoísmo, amor e ódio.





“O mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, entre o fogo e o amor”

30 05 2011

A História sempre nos reserva surpresas. Em uma realidade cheia de contradições, o novo irrompe inesperadamente, abrindo possibilidades de se construir um mundo melhor ou de descambarmos para a barbárie.

Em janeiro, começou a grande insurreição árabe. Depois, as manifestações no Wisconsin, em reação ao imenso retrocesso nos direitos dos trabalhadores nos EUA. No Brasil, convivemos com as rebeliões de dezenas de milhares de trabalhadores nas grandes obras de infraestrutura e com o atraso dos ruralistas na destruição da legislação ambiental. O obscurantismo e a barbárie sob disfarce religioso, mas com a falta de criticidade e de uma mínima honestidade na análise dos fatos, aspectos que já tinham sido observados no segundo turno das eleições presidenciais do ano passado, voltaram a aparecer com força total no baixíssimo nível do desinformado debate sobre os materiais de combate à homofobia do MEC e do Ministério da Saúde.

Mas eis que, em maio, os levantes populares da Islândia, Grécia, Wisconsin, Egito, Tunísia, Iêmen, Líbia, Marrocos, Síria e Bahrein, ainda em chamas, continuam a ressoar… Agora na Porta do Sol em Madri – e em várias outras cidades espanholas!

Há coisas demais acontecendo.

Limitar-me-ei a indicar algumas análises muito ricas sobre os homens e as mulheres que se recusam a aceitar passivamente a opressão. “Os homens estão cá fora, estão na rua.”

As manifestações que denunciam a falsa democracia capitalista:

http://socialismo.org.br/portal/internacional/38-artigo/2058-maio-espanhol-as-portas-de-um-novo-tempo

Auditoria da dívida: temos que fazer no Brasil!

http://www.esquerda.net/artigo/equador-experi%C3%AAncia-da-auditoria-oficial-da-d%C3%ADvida-p%C3%BAblica

Análises do governo Dilma e seu conservadorismo:

http://socialismo.org.br/portal/ecologia/95-artigo/2055-codigo-florestal-base-do-governo-ou-governo-da-base

http://socialismo.org.br/portal/politica/47-artigo/2050-codigo-florestal-e-qkit-gayq-a-falencia-de-uma-governabilidade-conservadora

http://socialismo.org.br/portal/politica/47-artigo/2059-o-perfil-do-governo-dilma

http://socialismo.org.br/portal/questoes-de-genero/162-noticia/2056-dilma-e-a-homofobia





Um poema que sempre me emociona: Mundo grande (Carlos Drummond de Andrade)

30 05 2011

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

(fonte: http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema020.htm)





Modelo econômico predatório interessa a quem?

27 05 2011

Reproduzo abaixo bela análise do Ciro Campos sobre as ideias dos grandes latifundiários e seus aliados no Congresso e na Assembleia. A destruição da legislação ambiental terá um preço a ser pago por toda a sociedade ao longo de gerações, mas lucros rápidos a curto prazo para meia dúzia de irresponsáveis: fonte: http://www.folhabv.com.br/Noticia_Impressa.php?id=109231

Mudança apressada no Código Florestal pode ser ainda pior para Roraima

Ciro Campos *

A mudança do Código Florestal Brasileiro, prestes a ser votada de modo apressado pelo congresso, é considerada exagerada e perigosa por cientistas, ambientalistas e por técnicos do governo federal, mas alguns políticos de Roraima conseguiram convencer Aldo Rebelo que ainda é pouco. Em entrevista ao jornal Folha de Boa Vista, em 10 de maio, o relator disse que defende a aprovação de uma emenda que permita ao estado desmatar 20% de seu território, ou 4,5 milhões de hectares. Segundo o relator, a falta de áreas para produzir, devido às demarcações de terras indígenas e unidades de conservação, condena o estado a ser uma espécie de “Parque Nacional do Brasil”, incapaz de produzir a farinha de mandioca que seu povo come: “Acho um escândalo não atender o que Roraima está pedindo porque é o mínimo”.

Esta meia verdade que está sendo repetida por Aldo Rebelo já foi analisada e desmentida por ocasião do julgamento do caso Raposa Serra do Sol. Embora seja verdade que a agricultura hoje não consiga tornar o estado auto-suficiente na produção de alimentos, não é verdade que o motivo seja a falta de terras, pois os dados oficiais mostram que apenas 10% da área desmatada em Roraima é usada pela agricultura. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que o desmatamento acumulado alcança cerca de 900 mil hectares nas áreas de floresta, e um recente estudo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e do Instituto Socioambiental (ISA) mostra que nas áreas de savana esse número supera 200 mil hectares, resultando em pelo menos 1,1 milhão de hectares já derrubados no estado. Por outro lado, o anuário “Roraima em Números – 2010”, documento oficial disponível na página do governo estadual, mostra que a área cultivada com as 14 principais culturas é de 53 mil hectares, enquanto os “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do Brasil – IBGE 2010” revelam que a área total das lavouras do estado seria de 116 mil hectares.

Se toda a área cultivada em Roraima representa apenas 10% do que já foi derrubado, é evidente que o problema da agricultura não é a falta de terras para plantar, pois a área disponível seria suficiente para alimentar o povo (450 mil habitantes) e ainda exportar alimentos. Isso, claro, se a política agrária fosse efetivamente implementada e os agricultores familiares tivessem os meios para produzir, com acesso a financiamento, assistência técnica, boas estradas, saúde, educação, e não fossem obrigados a ficar migrando de lote em lote deixando atrás de si as grandes fazendas que vão se formando, ou ainda migrar para a cidade agravando os problemas sociais. Enquanto a agricultura vai mal, a especulação imobiliária na zona rural se fortalece, a produção de madeira, principal item de exportação do estado, ganha impulso, e o que era floresta em terras públicas vira pasto em novos latifúndios.

O estado de Roraima está na vanguarda quando o assunto é reduzir a proteção ao meio ambiente. Um exemplo disso é o fato de que parte das propostas defendidas pelo setor ruralista para as mudanças no Código Florestal Brasileiro já estão contempladas em algumas leis estaduais aprovadas recentemente, como a anistia indiscriminada ao desmatamento e a redução da proteção na beira dos rios. O rio Branco, por exemplo, o maior rio do estado, que banha a capital, abastece a população e tem mais de mil metros de largura, teve a proteção nas suas margens reduzida de 500 metros para apenas 50 metros, e ainda passou a receber 100% do esgoto da capital, lançado diretamente e sem nenhum tratamento, mas com licença ambiental do estado.

Levando em conta que Roraima tem 22,4 milhões de hectares e que 46% dessa área está fora de terras indígenas e unidades de conservação (exceto APA), a aplicação do Código Florestal atual ainda permite ao estado derrubar cerca de 1 milhão de hectares e dobrar sua área desmatada, legalmente. Mas o que Aldo defende e chama de “o mínimo” é o direito para derrubar mais de 3 milhões de hectares, triplicando o que ainda poderia ser desmatado. Não é possível usar o exemplo de Roraima para justificar a necessidade de se reduzir a proteção da natureza. Isso atenta não apenas contra a qualidade de vida das gerações de hoje e amanhã, mas também contra a própria produtividade agrícola, que precisa de um ambiente equilibrado para manter as boas safras. Quando os setores mais conservadores da política roraimense começam a influenciar a política nacional a ponto de interferir no julgamento do relator do novo Código Florestal, é hora de ficarmos realmente amedrontados com o futuro do nosso país.

* Biólogo do ISA – Instituto Socioambiental. www.socioambiental.org (21/05/2011)





Não existe um “livro didático que ensina a escrever errado”: veja o artigo da Daniela

18 05 2011

“Por uma vida melhor”: por que abolir os conceitos de “certo” e “errado”

(A respeito de uma polêmica em que muita gente já falou besteira demais, reproduzo a seguir texto publicado em http://cloacanews.blogspot.com/2011/05/nos-roubemo-as-palavra-de-outro-blog.html e também em http://somosmulheresdefibra.blogspot.com/)
Por Daniela Jakubaszko*, do blog Mulheres de Fibra

A polêmica que se criou em torno do livro Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, adotado pelo MEC, é inútil e representa um retrocesso para a Educação.

Como lingüista e professora de português defendo ardorosamente a utilização do livro. Vou explicar, mas antes faço alguns esclarecimentos:

1. A escola é o lugar por excelência da norma culta, é lá que devemos aprender a utilizá-la, isso ninguém discute, é fato.

2. O livro NÃO está propondo que o aluno escreva “nós pega” – como estão divulgando por aí – ele está apenas constatando a existência da expressão no registro “popular”. Do ponto de vista cotidiano, a expressão é válida porque dá conta de comunicar o que se propõe. E ela é mais que comum e, sejamos sinceros, é a linguagem que o leitor dessa obra usa e entende. Será que é intenção da escola se comunicar com ele de verdade? Se for, ela tem que usar um livro que consiga fazer isso. Uma gramática cheia de exemplos eruditos e termos que o aluno não consegue nem memorizar, com certeza, não vai conseguir.

3. O que o livro está propondo é trocar as noções de “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado”. E isso é mais que certo. Vou explicar a seguir.

4. A questão é: como ensinar a norma culta num país de tradição oral, e no qual existe um abismo entre a língua oral e a língua escrita? Como fazer isso com jovens adultos – que já apresentam um histórico de “fracasso” em seu processo formal de educação e, muito provavelmente, na aquisição dos termos da gramática e seus significados. Se esse jovem não assimilou até o momento em que procurou o EJA (Educação de Jovens e Adultos) a “concordância de número”, como o professor vai fazê-lo usar a crase? Isso para mencionar apenas um dos tópicos mais fáceis da gramática e que a maioria das pessoas, inclusive as “mais cultas e graduadas”, algumas até mesmo com doutorado, ainda não sabem explicar quando ela é necessária.

Por que abolir os conceitos de “certo” e “errado”?

Vou mencionar apenas 3 razões, para não cansar demais o leitor, mas existem muitas outras, quem se interessar pode perguntar que eu passo a bibliografia.

1. Primeiro, por uma questão de honestidade com o aluno. A língua é viva, assim como a cultura, e não pode ser dirigida, por mais que tentem. Por isso, não existe nem “certo” nem “errado”: as regras são convenções e são alteradas de tempos em tempos por um acordo entre países falantes de uma mesma língua. O que era “errado” há alguns anos, hoje pode ser “certo”. Agora é correto escrever lingüística sem trema – o que discordo – e ideia sem acento. Assim, o que existe é o “adequado à norma culta” e o “inadequado à norma culta”. E essa norma é uma convenção, não uma lei natural e imutável. Além disso, por mais que a escola seja representante da norma culta, isto não significa que ela deva ficar “surda” diante dos demais níveis de fala. A língua portuguesa – ou qualquer língua – não pode ser reduzida à sua variante padrão. Tão pouco as aulas de português devem ficar. Afinal, se numa narrativa aparece um personagem, por exemplo, pescador e analfabeto, como o aluno deverá escrever uma fala (verossímil) para ele? Escrever de forma inverossímil é certo? Aliás, o que seria dos poetas e escritores se não fosse o registro popular da língua? Acho que Guimarães Rosa nem existiria.

Com certeza a crítica ao livro parte de setores conservadores e normativos. Eu, como lingüista e professora, não apoio a retirada dos livros porque não acho justo falar para o aluno que o jeito que ele fala é errado, até porque não é, só não está de acordo com a norma culta, o que é muito diferente. Depois que você explica isso para o aluno é que ele entende o que está fazendo naquela aula. Essa troca faz toda a diferença.

2. Segundo, porque quando você diz para um aluno sucessivas vezes que o que ele fez está “errado” você passa por cima da subjetividade dele e acaba com toda a naturalidade dessa pessoa. Daí, ela não fala “certo” e também não sabe quando fala “errado”. Assim, quando na presença de pessoas que ela julga mais letradas que ela própria, não tenha dúvida, vai ficar muda. A formação da identidade do sujeito passa obrigatoriamente pela aquisição da linguagem, viver apontando os erros é desconsiderar a experiência de vida daquela pessoa, é diminuí-la porque ela não teve estudo. E não se engane: ela pode se tornar até uma profissional mais desejada pelo mercado por usar melhor a norma culta, mas não necessariamente vai se tornar uma pessoa melhor.

3. Em terceiro, porque é urgente trocar o ponto de vista normativo pelo científico. A lingüística reconhece que a língua tem seu curso e muda conforme o uso e a cultura: já foi muito errado falar (e escrever) “você”, por exemplo. A lingüística também reconhece que a língua é instrumento de poder, por isso, nada mais importante do que desmistificar a gramática normativa. Isto não significa deixá-la de lado, mas precisamos exercitar uma visão mais crítica. Esse aluno sente na pele a discriminação social devido ao seu nível de fala, nada mais natural que ele rejeite a norma culta e considere pedante a pessoa que fala segundo a norma padrão. É compreensível, ainda, que ele não entenda grande parte do que se diz em sala de aula. O que não é compreensível é o professor, ou melhor, “a Escola”, não entender a razão de isso acontecer.

Em nenhum momento foi dito que a professora e autora do livro em questão não iria corrigir ou ensinar a norma culta aos alunos, só ficou validado o registro oral. Os alunos precisam entrar em contato com o distanciamento científico. E os lingüistas não saem por aí corrigindo ninguém, eles observam, e você, leitor, bem sabe como funciona a ciência – e um aluno de pelo menos 15 anos já precisa começar a ouvir falar do pensamento científico. Além disso, é muito bom que eles percebam se o nível de fala que usam tem prestígio ou não, e o porquê.

Por que ignorar o estudo da língua oral em sala de aula? Eu fazia um trabalho nesse sentido com os meus alunos e só depois de transcrever entrevistas orais eles conseguiam ouvir a si mesmos e tomar consciência de seu registro lingüístico: “nossa, como eu falo gíria! Eu nem percebia!”. Aí sim eles entendem que, com o amigo, com os pais, eles podem dizer “os peixe”, mas que na prova é preciso escrever “os peixes”, no seminário é preciso dizer “os peixes”, mas ele precisa estar à vontade para fazer isso. A realidade em sala de aula é que os alunos não entendem onde estão errando. Quando você explica o conceito de norma culta eles entendem. Cria-se um parâmetro e não uma tábua de salvação inatingível. É aceitando o registro desse interlocutor e apresentando mais uma possibilidade de uso da língua para ele que vai surgir o esforço para aprender. Se você insistir no “certo” e no “errado” ele vai ficar com raiva e rejeitar o novo. Quer apostar?

Ter uma boa comunicação não é sinônimo de usar bem as regras da gramática. Para ensinar os conceitos de “gramática natural” e “gramática normativa” temos de dar esses exemplos. Os conservadores se arrepiam porque eles partem do princípio que você nunca pode escrever ou falar nada errado na frente do aluno. Para mim isso é hipocrisia: o aluno tem direito de saber que o registro que ele usa em casa é diferente daquele que ele usa na rua, no estádio de futebol, na escola, no trabalho, em frente ao juiz. E tem o direito de saber que o “correto” se define por aquele que tem mais prestígio social. Essas são só as primeiras noções de sociolingüística, para quem quiser abrir a cabeça e saber. Ou será que a língua portuguesa se aprende descolada da realidade? É isso que se está tentando mudar. É tão difícil assim perceber isso?

Quando me perguntam qual é a função do professor de português na escola, eu respondo: oferecer ao aluno um grau cada vez mais elevado de consciência lingüística; oferecer instrumentos para que ele possa transitar conscientemente entre os diversos níveis de linguagem. Só depois de realizada essa operação o aluno vai conseguir escrever conforme as regras da norma culta. E falar a norma padrão com naturalidade. Ou, ainda, escolher falar conforme o ambiente em que cresceu e formou a sua subjetividade (Lula que o diga, comunica-se muito bem, sem camuflar as suas origens). É bom ficar claro que a função do professor não se reduz a “corrigir” o aluno. Isso, o google, até o word, pode fazer. Ajudar o aluno a ter consciência de seu nível de fala é outra história…

O problema não é uma pessoa dizer “nós pega”, o problema é ela não entender que esse uso não é adequado em determinados contextos, o problema é não saber dizer “nós pegamos”. Ou sequer compreender porque não pode falar “nós pega”… É, leitor, tem muito aluno que não entende porque precisa aprender uma lista de nomes difíceis que nada significam para ele e que ele não enxerga a relação direta entre uso da norma culta e como esta vai ajudá-lo a melhorar de vida.

Conheço quilos, ou toneladas, de gente formada, pós-graduada, que fala “seje” e não tem consciência de que está falando assim, e ainda critica quem fala “menas”. Ouvir a si mesmo é uma das coisas mais difíceis de fazer. E como ajudar o aluno a fazer isso?
O primeiro passo é, sem dúvida, abolir o “certo” e o “errado”. Enquanto o professor for detentor da caneta vermelha, o aluno vai tremer diante dele e nada do que ele disser vai entrar na cabeça dessa pessoa preocupada em acertar uma coisa que não entende, tem vergonha de dizer que não entende, então não pergunta, faz que entendeu, erra na prova e o resultado é ela se achar cada vez mais burra e desistir de estudar. Ufa… Puxa, ninguém estuda mais psicologia da educação? Isso é básico!

E então, leitor, o que é mais honesto com esse aluno que chega na EJA com a autoestima lá em baixo? Começar falando a língua dele e depois trazê-lo para a norma padrão ou começar de cara a humilhá-lo com uma língua que ele não entende?

É muito sério quando pessoas leigas começam a emitir, levianamente, juízos de valor sobre assuntos que não dominam. Alguns jornalistas, blogueiros e “opineiros” de plantão, por exemplo, sem conhecimento dos conceitos e técnicas de ensino em lingüística, sem a menor noção do que está acontecendo nas salas de aula desse país, começam a querer dizer para os professores o que eles têm de fazer, como eles têm de ensinar! Isto sim, é nivelar por baixo! É detonar, mais ainda, a autoridade do professor, já tão desprezada no país. Ah, e ainda fazem isso sem perceber que freqüentemente cometem erros crassos; eu estou cansada de lê-los em blogs, jornais e revistas, e ouvi-los na televisão. Não que precisem, ou usamos com eles os mesmos critérios que defendem?

E então, qual é mesmo o tipo de educação que o Brasil precisa?

* Daniela Jakubaszko é bacharel em lingüística e português pela FFLCH-USP, mestre e doutora pela ECA-USP.





Convite: grupo de estudos marxistas

6 05 2011

Encontros semanais do Coletivo Práxis: estudo e prática da teoria marxiana

Textos, filmes e debates, toda sexta-feira, de 14h30 às 16h30, na UFRR (sala 151, Bloco I).

Precisamos nos unir para promover a reflexão sobre o mundo cada vez mais absurdo em que vivemos. Em meio à caótica sucessão de (des)informações, de acontecimentos aparentemente desconexos, assistimos à degradação do espírito crítico no próprio ensino superior, cada vez mais aligeirado e “pasteurizado”. Entre as opções do conformismo bovino e do voluntarismo sectário e fanático, queremos preservar a tradição racionalista do humanismo e do iluminismo, na sua vertente de esquerda, e compreender melhor a contribuição de Marx para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Queres participar dessa empreitada conosco?





“Olho por olho e acabaremos todos cegos” (Gandhi)

5 05 2011

Ok. Os Estados Unidos tem apoiado, financiado e treinado grupos e governos terroristas nos últimos 60 anos. Alguém vai pagar por isso? Bin Laden era um terrorista. E o governo dos EUA? Seu apoio ao Taleban, a Sadam Hussein, Pinochet e tantos outros deve ser esquecido?

E quanto à “operação” que assassinou Bin Laden? Assim como seu aluno, Uribe, que ordenou que forças colombianas entrassem sem autorização no vizinho Equador para assassinar opositores, o governo dos EUA e o governo de Israel tem estabelecido como normalidade o ato de entrar em qualquer país e assassinar quem eles queiram, sem julgamento, sem lei. Isso é diferente do que Bin Laden fez? Afora a quantidade de vítimas e o poder de fogo dessas potências, o que as diferencia, moralmente, de terroristas como Bin Laden?

Por que EUA e Israel são praticamente os únicos países que não aceitam o Tribunal Penal Internacional? Por que eles violam continuamente as resoluções da ONU? Por que só eles podem ter arsenais nucleares à vontade?

São perguntas que raramente vemos na mídia empresarial submissa. Mas se o governo dos EUA instaura e legitima o vale-tudo, precisamos nos perguntar sobre quem é a maior ameaça à segurança e à estabilidade mundiais.

O melhor comentário talvez seja a charge do gaúcho Santiago, feita há tempos atrás mas infelizmente sempre atual:

* CORREÇÃO: com base no blog da Mariafro, eu tinha dito aqui que o nosso Chanceler tinha considerado “positiva” a operação totalmente ilegal e imoral dos EUA. Mas não consegui confirmar essa afirmação em lugar algum. Pode ter havido um engano ou uma manipulação das palavras de Patriota. Peço desculpas aos leitores por ter acreditado na informação do referido blog sem confirmá-la primeiro.








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